Dez anos após a chegada da Uber a Fortaleza, profissionais que trocaram empregos formais pelo transporte por aplicativo convivem com jornadas extensas, queda nos ganhos, despesas crescentes e falta de direitos trabalhistas, embora parte da categoria ainda receba acima da renda média do Ceará.
O Brasil tinha 1,7 milhão de trabalhadores ligados a plataformas digitais em 2024, segundo a PNAD Contínua do IBGE, desse total, 964 mil, ou 58,3%, atuavam em aplicativos de transporte, grupo que registrava renda superior à média nacional, mas também trabalhava por mais horas.
Segundo o G1, Felipe trabalhava como técnico de instalação em uma empresa de telefonia, vendeu uma motocicleta e alugou um carro para começar a dirigir, hoje possui veículo próprio e afirma ganhar duas ou três vezes mais do que recebia no antigo emprego, porém não tira férias desde que entrou nas plataformas, há cerca de quatro anos.
Para ele, o motorista precisa controlar combustível, manutenção, alimentação e despesas pessoais, pois o dinheiro recebido pelas corridas não corresponde ao lucro, ele também afirma que os valores pagos diminuíram diante da alta da gasolina, da inflação e do encarecimento de peças e serviços automotivos.
Evans Souza, presidente da Associação de Motoristas por Aplicativo do Ceará, a AMAP-CE, trabalhava como editor de vídeo antes de começar a dirigir em 2016, segundo ele, a renda mensal chegou a aproximadamente R$ 12 mil no início das operações em Fortaleza, mas atualmente fica entre R$ 5 mil e R$ 6 mil, uma redução próxima de 50%.
Ele afirma que a corrida mínima caiu de R$ 6,75 para R$ 5,80 em dez anos, enquanto as plataformas podem ficar com uma parcela entre 30% e 60% do valor pago pelo passageiro, a associação considera justa uma taxa entre 20% e 25%. Ele reconhece que os aplicativos abriram oportunidades de renda, mas avalia que o trabalho ficou menos vantajoso com a redução das tarifas e o aumento dos custos.
“Quando o motorista começou [10 anos atrás], a média salarial dele era em torno de 12 mil reais, quando começou o boom dos aplicativos aqui em Fortaleza. Hoje, essa média, eu acho que ela caiu quase 50%. Então, assim, para o motorista dizer que roda e é sobrevivente, ele tem uma média de 6 mil reais. Entre 5 e 6 mil reais. Então, assim, caiu drasticamente em torno de 50%”, aponta Evans.
Uma pesquisa da fintech GigU calculou faturamento mensal médio de R$ 6.428,57 entre motoristas de Fortaleza, com jornada de 55 horas semanais, equivalente a oito horas diárias durante os sete dias da semana, porém gasolina e manutenção consumiam cerca de 54% dessa receita, deixando lucro próximo de R$ 2,9 mil. A renda média dos trabalhadores cearenses era de R$ 2.071 em 2024.
Katiuse, formada em pedagogia, deixou a sala de aula e trabalha como motorista desde 2017, atualmente concentra as corridas entre quinta-feira e domingo, limita a jornada a oito horas e guarda parte do dinheiro para pneus, troca de óleo, manutenção e dias de descanso. O marido também dirige, principalmente no período noturno.
Em outubro de 2024, Katiuse sofreu importunação sexual durante uma corrida, acionou um grupo de motoristas e recebeu ajuda de uma equipe da Polícia Militar, o passageiro foi preso e virou réu na Justiça. Ela ficou meses sem trabalhar e, quando retornou, passou a aceitar somente passageiras.
A violência continua entre os principais riscos da categoria, entre 2019 e 2025, 52 motoristas foram mortos enquanto trabalhavam no Ceará, foram uma morte em 2019, 12 em 2020, cinco em 2021, cinco em 2022, oito em 2023, 12 em 2024 e nove em 2025. Entre janeiro e março de 2026, não houve registro. Motoristas reconhecem avanços como gravação das corridas, câmeras e viagens exclusivas para mulheres.
A Uber começou a operar em Fortaleza em 29 de abril de 2016, a 99 chegou em 2017, os serviços com motocicletas foram lançados pela Uber em 2021 e pela 99 em 2022. A prefeitura regulamentou a atividade em 2018, após um período marcado por operações irregulares e apreensões de veículos.
O advogado e pesquisador Rafael Sales afirma que os motoristas permanecem em um limbo jurídico, pois não são reconhecidos como empregados nem possuem autonomia plena, mais de 71% não têm MEI ou CNPJ e muitos deixam de contribuir para o INSS, ficando sem FGTS, 13º salário, seguro-desemprego, aposentadoria e proteção em caso de doença ou acidente. A regulamentação continua sem definição no Congresso Nacional, no STJ e no STF.