Motoristas deixam antigos empregos e encaram custos e instabilidade nos apps

Publicado por em Tecnologia e Trabalho dia
Motoristas deixam antigos empregos e encaram custos e instabilidade nos apps

Dez anos após a chegada da Uber a Fortaleza, profissionais que trocaram empregos formais pelo transporte por aplicativo convivem com jornadas extensas, queda nos ganhos, despesas crescentes e falta de direitos trabalhistas, embora parte da categoria ainda receba acima da renda média do Ceará.

O Brasil tinha 1,7 milhão de trabalhadores ligados a plataformas digitais em 2024, segundo a PNAD Contínua do IBGE, desse total, 964 mil, ou 58,3%, atuavam em aplicativos de transporte, grupo que registrava renda superior à média nacional, mas também trabalhava por mais horas.

Homem deixou emprego com carteira assinada e passou quatro anos sem férias

Segundo o G1, Felipe trabalhava como técnico de instalação em uma empresa de telefonia, vendeu uma motocicleta e alugou um carro para começar a dirigir, hoje possui veículo próprio e afirma ganhar duas ou três vezes mais do que recebia no antigo emprego, porém não tira férias desde que entrou nas plataformas, há cerca de quatro anos.

Motoristas de aplicativo em Fortaleza faturam R$ 6.428 por mês, trabalham 55 horas semanais e gastam 54% da receita com combustível e manutenção.
Motoristas de aplicativo em Fortaleza faturam R$ 6.428 por mês, trabalham 55 horas semanais e gastam 54% da receita com combustível e manutenção.

Para ele, o motorista precisa controlar combustível, manutenção, alimentação e despesas pessoais, pois o dinheiro recebido pelas corridas não corresponde ao lucro, ele também afirma que os valores pagos diminuíram diante da alta da gasolina, da inflação e do encarecimento de peças e serviços automotivos.

Presidente da Associação de Motoristas por Aplicativo do Ceará calcula queda de 50% nos ganhos em dez anos

Evans Souza, presidente da Associação de Motoristas por Aplicativo do Ceará, a AMAP-CE, trabalhava como editor de vídeo antes de começar a dirigir em 2016, segundo ele, a renda mensal chegou a aproximadamente R$ 12 mil no início das operações em Fortaleza, mas atualmente fica entre R$ 5 mil e R$ 6 mil, uma redução próxima de 50%.

Ele afirma que a corrida mínima caiu de R$ 6,75 para R$ 5,80 em dez anos, enquanto as plataformas podem ficar com uma parcela entre 30% e 60% do valor pago pelo passageiro, a associação considera justa uma taxa entre 20% e 25%. Ele reconhece que os aplicativos abriram oportunidades de renda, mas avalia que o trabalho ficou menos vantajoso com a redução das tarifas e o aumento dos custos.

“Quando o motorista começou [10 anos atrás], a média salarial dele era em torno de 12 mil reais, quando começou o boom dos aplicativos aqui em Fortaleza. Hoje, essa média, eu acho que ela caiu quase 50%. Então, assim, para o motorista dizer que roda e é sobrevivente, ele tem uma média de 6 mil reais. Entre 5 e 6 mil reais. Então, assim, caiu drasticamente em torno de 50%”, aponta Evans.

Uma pesquisa da fintech GigU calculou faturamento mensal médio de R$ 6.428,57 entre motoristas de Fortaleza, com jornada de 55 horas semanais, equivalente a oito horas diárias durante os sete dias da semana, porém gasolina e manutenção consumiam cerca de 54% dessa receita, deixando lucro próximo de R$ 2,9 mil. A renda média dos trabalhadores cearenses era de R$ 2.071 em 2024.

Mulher mantém reserva para oficina e deixou de dirigir à noite

Katiuse, formada em pedagogia, deixou a sala de aula e trabalha como motorista desde 2017, atualmente concentra as corridas entre quinta-feira e domingo, limita a jornada a oito horas e guarda parte do dinheiro para pneus, troca de óleo, manutenção e dias de descanso. O marido também dirige, principalmente no período noturno.

Em outubro de 2024, Katiuse sofreu importunação sexual durante uma corrida, acionou um grupo de motoristas e recebeu ajuda de uma equipe da Polícia Militar, o passageiro foi preso e virou réu na Justiça. Ela ficou meses sem trabalhar e, quando retornou, passou a aceitar somente passageiras.

Motoristas de aplicativo em Fortaleza faturam R$ 6.428 por mês, trabalham 55 horas semanais e gastam 54% da receita com combustível e manutenção.
Motoristas de aplicativo em Fortaleza faturam R$ 6.428 por mês, trabalham 55 horas semanais e gastam 54% da receita com combustível e manutenção.

A violência continua entre os principais riscos da categoria, entre 2019 e 2025, 52 motoristas foram mortos enquanto trabalhavam no Ceará, foram uma morte em 2019, 12 em 2020, cinco em 2021, cinco em 2022, oito em 2023, 12 em 2024 e nove em 2025. Entre janeiro e março de 2026, não houve registro. Motoristas reconhecem avanços como gravação das corridas, câmeras e viagens exclusivas para mulheres.

A Uber começou a operar em Fortaleza em 29 de abril de 2016, a 99 chegou em 2017, os serviços com motocicletas foram lançados pela Uber em 2021 e pela 99 em 2022. A prefeitura regulamentou a atividade em 2018, após um período marcado por operações irregulares e apreensões de veículos.

O advogado e pesquisador Rafael Sales afirma que os motoristas permanecem em um limbo jurídico, pois não são reconhecidos como empregados nem possuem autonomia plena, mais de 71% não têm MEI ou CNPJ e muitos deixam de contribuir para o INSS, ficando sem FGTS, 13º salário, seguro-desemprego, aposentadoria e proteção em caso de doença ou acidente. A regulamentação continua sem definição no Congresso Nacional, no STJ e no STF.

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Alan Corrêa
Alan Corrêa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.

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