Você já ouviu falar no fertilizante de vidro? Cientistas brasileiros da USP dizem que ele rende até 70% mais e a explicação surpreende agricultores

Tecnologia agrícola desenvolvida por pesquisadores da USP e Embrapa cria fertilizante de vidro que libera nutrientes lentamente, reduz perdas no solo e pode transformar o uso de adubos no campo.
Publicado por em Agro dia
Você já ouviu falar no fertilizante de vidro? Cientistas brasileiros da USP dizem que ele rende até 70% mais e a explicação surpreende agricultores
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Uma linha de pesquisa conduzida por cientistas brasileiros começa a chamar atenção no setor agrícola ao propor uma mudança na forma como nutrientes são entregues às plantas. Em vez de grânulos solúveis que se dissolvem rapidamente no solo, a nova tecnologia utiliza partículas de vidro capazes de liberar nutrientes de forma gradual.

O material foi desenvolvido por pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo e à Embrapa. O objetivo é reduzir perdas de nutrientes, melhorar a eficiência da adubação e diminuir impactos ambientais associados ao uso intensivo de fertilizantes tradicionais.

Desde 2018, os pesquisadores trabalham na formulação desse fertilizante vítreo, que reúne macro e micronutrientes essenciais dentro de uma matriz semelhante ao vidro. A ideia é simples em conceito, mas complexa em execução: transformar nutrientes minerais em uma estrutura sólida que se dissolve lentamente no solo.

Como funciona o fertilizante vítreo

O processo de fabricação envolve a fusão de diferentes nutrientes em temperaturas próximas de 1.100 °C. Após o resfriamento, o material é triturado até formar partículas com cerca de um milímetro de diâmetro.

Dentro dessas partículas permanecem elementos fundamentais para o crescimento das plantas, entre eles fósforo, potássio, cálcio, silício, magnésio e boro.

Quando aplicadas na lavoura, essas partículas começam a se dissolver lentamente. Em vez de liberar todos os nutrientes de uma vez, o material se degrada gradualmente, disponibilizando os elementos ao longo do tempo.

Essa característica reduz um fenômeno comum na agricultura chamado lixiviação, quando nutrientes são carregados pela água da chuva ou da irrigação antes de serem absorvidos pelas raízes.

Resultados em testes agrícolas

Resultados de testes laboratoriais e experimentos em casas de vegetação indicaram desempenho agronômico superior ao fertilizante convencional.

Segundo estudo publicado em fevereiro de 2025 na revista científica ACS Agricultural Science & Technology, o fertilizante vítreo apresentou eficiência até 70% maior em comparação com o NPK tradicional em determinadas condições de cultivo.

A explicação está na forma como os nutrientes são disponibilizados. Enquanto fertilizantes convencionais costumam ter aproveitamento médio próximo de 30%, grande parte do material aplicado pode se perder no solo ou ser carregada pela água.

No caso do fertilizante de vidro, a dissolução gradual permite que as plantas absorvam nutrientes de maneira mais contínua.

Ao liberar nutrientes lentamente, o fertilizante vítreo reduz perdas no solo e diminui o risco de contaminação de rios e lençóis freáticos.

Desafio químico e solução encontrada

Durante o desenvolvimento do material, os pesquisadores enfrentaram um obstáculo importante. Dois nutrientes essenciais para as plantas, nitrogênio e enxofre, não resistem às altas temperaturas necessárias para a fusão do vidro.

A solução encontrada foi incorporar esses elementos por meio de biopolímeros.

Nesse processo, nitrogênio e enxofre são encapsulados em materiais biodegradáveis que podem ser adicionados ao fertilizante vítreo. Quando o produto é aplicado no solo, esses nutrientes são liberados posteriormente, complementando a nutrição das plantas.

  • Fósforo
  • Potássio
  • Cálcio
  • Silício
  • Magnésio
  • Boro

Essa combinação permite que o fertilizante forneça um conjunto mais completo de nutrientes, mantendo a proposta de liberação controlada.

Impacto ambiental e possível economia no campo

Além da eficiência agronômica, os pesquisadores destacam o potencial ambiental da tecnologia. A redução da lixiviação significa menor transporte de nutrientes para rios e reservatórios.

Esse processo é um dos fatores associados à eutrofização, fenômeno que provoca proliferação excessiva de algas em corpos d’água devido ao excesso de nutrientes, como revelou a USP.

Do ponto de vista econômico, o fertilizante vítreo pode alterar a dinâmica de aplicação nas lavouras. Embora o custo inicial do produto possa ser mais elevado, a liberação lenta de nutrientes tende a reduzir a frequência de reaplicação.

Produção industrial e próximos passos

Outro fator que chamou atenção dos pesquisadores é que o processo de produção do fertilizante vítreo é semelhante ao utilizado na fabricação do vidro convencional.

Isso significa que, em teoria, a tecnologia poderia ser adaptada para produção em escala industrial sem necessidade de processos completamente novos.

Os estudos começaram em 2018 e são conduzidos por pesquisadores do Instituto de Química da USP em São Carlos e da Escola de Engenharia de São Carlos, com participação da Embrapa em diferentes etapas de validação científica.

Durante o desenvolvimento, foram realizados testes ecotoxicológicos utilizando sementes de alface e cebola para avaliar a segurança do produto no solo.

Segundo o G1, os resultados indicaram que o fertilizante é seguro para uso agrícola, etapa considerada essencial antes de qualquer avanço comercial.

Aspecto analisado Resultado observado
Liberação de nutrientes Gradual e controlada
Eficiência agronômica Até 70% superior ao NPK em testes
Perdas por lixiviação Reduzidas
Segurança ambiental Testes ecotoxicológicos positivos

Os pesquisadores envolvidos no projeto indicam que a expectativa é avançar para fases de desenvolvimento voltadas à aplicação prática e preparação para o mercado, com previsão de lançamento comercial entre 2026 e 2027, enquanto novas etapas de testes continuam sendo conduzidas para validar o desempenho do fertilizante em diferentes tipos de solo e culturas agrícolas.

Alan Corrêa
Alan Correa
Jornalista multimídia e analista de tendências (MTB: 0075964/SP). Com olhar versátil que transita entre o setor automotivo, economia e cultura pop, é especialista em traduzir dinâmicas complexas do mercado e do comportamento do consumidor. No Carro Das Notícias e portais parceiros, assina de testes técnicos e guias de compra a análises de engajamento e entretenimento, sempre com foco em dados e interesse do público.