Por que algumas crianças sofrem tanto com matemática? Estudo analisou o cérebro de alunos e encontrou um detalhe surpreendente

Dificuldade com matemática nas crianças: estudo mostra o que acontece no cérebro durante os cálculos.
Publicado por em Educação dia
Por que algumas crianças sofrem tanto com matemática? Estudo analisou o cérebro de alunos e encontrou um detalhe surpreendente
Publicidade

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Stanford investigou por que algumas crianças apresentam mais dificuldades em matemática do que outras. Os resultados indicam que a diferença pode estar ligada à forma como o cérebro monitora erros e ajusta estratégias durante a resolução de problemas.

A pesquisa acompanhou estudantes do segundo e terceiro anos do ensino fundamental enquanto realizavam tarefas simples de comparação entre números e quantidades. Durante as atividades, os cientistas registraram a atividade cerebral dos participantes utilizando ressonância magnética funcional.

O objetivo era observar quais regiões do cérebro eram ativadas enquanto os alunos resolviam os exercícios.

Como o experimento foi realizado

O estudo analisou 87 crianças. Entre elas, 34 apresentavam dificuldades de aprendizagem em matemática, identificadas por pontuações mais baixas em testes padronizados de fluência matemática. As outras 53 tinham desempenho considerado típico.

Durante os testes, os participantes precisavam indicar qual de duas quantidades era maior. As comparações apareciam de duas formas diferentes.

  • Grupos de pontos representando quantidades
  • Números arábicos como 2, 5 ou 7

Os exercícios também variavam em dificuldade. Algumas comparações eram simples, como entre 7 e 2. Outras eram mais próximas, como entre 5 e 6.

Esse formato foi escolhido para reduzir diferenças grandes de desempenho entre os grupos e permitir que os pesquisadores observassem principalmente os processos mentais envolvidos na tomada de decisão.

Diferenças aparecem quando entram os números

À primeira vista, os dois grupos tiveram resultados semelhantes. Crianças com e sem dificuldades acertaram os problemas com frequência parecida.

Mas uma análise mais detalhada revelou diferenças importantes no comportamento durante as respostas.

Crianças com desenvolvimento matemático considerado típico tendiam a responder mais devagar quando enfrentavam perguntas difíceis. Esse comportamento foi interpretado como um sinal de cautela cognitiva, ou seja, uma estratégia de desacelerar para evitar erros.

Já os alunos com dificuldades em matemática apresentavam menos mudança de estratégia diante de desafios e tinham menor tendência a desacelerar depois de cometer um erro.

Quando os problemas não usam números

Curiosamente, essas diferenças desapareceram quando os exercícios eram apresentados como grupos de pontos, sem o uso de símbolos numéricos.

Nessas situações, as crianças com dificuldades em matemática conseguiam distinguir quantidades com facilidade semelhante à dos colegas.

Esse resultado sugere que o problema não está necessariamente na percepção de quantidades, mas na interpretação e manipulação de símbolos numéricos.

Segundo os pesquisadores, muitas crianças conseguem distinguir cinco de dez pontos com facilidade, mas encontram dificuldade quando precisam raciocinar usando números.

O que mostram os exames do cérebro

As imagens obtidas durante o experimento ajudaram a identificar duas regiões do cérebro associadas às diferenças observadas.

  • Giro frontal médio
  • Córtex cingulado anterior

O giro frontal médio está ligado às chamadas funções executivas, responsáveis por processos como manter a atenção, controlar impulsos e adaptar estratégias diante de desafios.

Já o córtex cingulado anterior está associado ao monitoramento de erros e ao controle do comportamento.

Segundo a análise, crianças com dificuldades em matemática apresentavam menor atividade nessas regiões enquanto resolviam problemas envolvendo números.

O que os pesquisadores dizem sobre os resultados

Os cientistas ressaltam que o estudo não demonstra uma relação direta de causa e efeito entre atividade cerebral e dificuldade em matemática. A análise é considerada exploratória, identificando associações entre padrões cerebrais e comportamento durante as tarefas.

Mesmo assim, os resultados sugerem que o desempenho matemático depende de um conjunto amplo de processos cognitivos, e não apenas da habilidade de compreender números.

Os pesquisadores também destacam que essas diferenças podem influenciar a forma como estudantes lidam com erros durante o aprendizado.

Impactos no ensino da matemática

Os resultados indicam que intervenções educacionais podem ir além do ensino de operações básicas e trabalhar também estratégias de raciocínio e reflexão sobre erros.

Entre as possibilidades sugeridas estão atividades que incentivem os alunos a analisar o próprio processo de pensamento e a ajustar estratégias ao resolver problemas.

Identificar dificuldades cedo também é considerado importante pelos pesquisadores, já que obstáculos persistentes em matemática podem gerar frustração, ansiedade e perda de motivação ao longo da vida escolar.

Em alguns casos, as dificuldades podem estar associadas à discalculia, um transtorno de aprendizagem que afeta entre 3% e 7% da população e envolve problemas persistentes na compreensão de números e quantidades.

Os autores do estudo indicam que pesquisas futuras devem investigar se estratégias de ensino focadas no monitoramento de erros e na adaptação de comportamento podem ajudar alunos a melhorar o desempenho em matemática.

Alan Corrêa
Alan Correa
Jornalista multimídia e analista de tendências (MTB: 0075964/SP). Com olhar versátil que transita entre o setor automotivo, economia e cultura pop, é especialista em traduzir dinâmicas complexas do mercado e do comportamento do consumidor. No Carro Das Notícias e portais parceiros, assina de testes técnicos e guias de compra a análises de engajamento e entretenimento, sempre com foco em dados e interesse do público.