A cientista Tatiana Sampaio, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tornou-se uma das figuras mais comentadas da ciência brasileira após a divulgação de resultados preliminares de uma pesquisa sobre a chamada polilaminina.
O estudo investiga uma forma de reorganizar proteínas naturais do corpo para estimular a reconexão de neurônios em pessoas com lesões na medula espinhal. Os primeiros resultados levantaram expectativa na comunidade científica ao apontar possibilidade de recuperação parcial de movimentos em pacientes paralisados.
A pesquisa começou com estudos sobre a laminina, uma proteína presente no organismo que desempenha papel importante na formação do sistema nervoso durante o desenvolvimento embrionário.
Essa proteína funciona como uma espécie de estrutura de apoio para o crescimento dos neurônios que conectam o cérebro ao restante do corpo.
Durante experimentos laboratoriais, Tatiana observou que fragmentos dessa proteína podiam reorganizar-se formando uma nova estrutura. A partir dessa descoberta surgiu a ideia de desenvolver uma versão artificial capaz de recriar esse ambiente de crescimento neural.
O desenvolvimento da pesquisa ocorreu em várias etapas ao longo de décadas.
Em um estudo inicial com pacientes paraplégicos e tetraplégicos, seis de oito participantes apresentaram algum grau de recuperação de movimentos após a aplicação da substância. Em um dos casos relatados, o paciente voltou a andar após meses de acompanhamento.
O projeto teve início em 1998 e enfrentou dificuldades para conseguir apoio da indústria farmacêutica para a realização de estudos clínicos.
Sem patrocínio inicial de grandes empresas, a equipe optou por conduzir o desenvolvimento dentro da própria universidade, em um estudo clínico acadêmico.
Posteriormente, a produção da molécula passou a contar com parceria do laboratório Cristália, que investiu recursos no desenvolvimento do projeto.
No início de 2026, a Anvisa autorizou o início de um estudo clínico formal para avaliar a segurança e eficácia do uso da polilaminina em humanos.
Esse tipo de pesquisa normalmente passa por três fases antes de qualquer aprovação regulatória.
Caso os resultados confirmem a eficácia do tratamento, o medicamento ainda deverá levar alguns anos para chegar ao mercado.
Com a divulgação dos primeiros resultados, a pesquisadora passou a receber grande atenção do público e da mídia.
Segundo Tatiana, muitas pessoas a abordam nas ruas demonstrando esperança de que a descoberta possa trazer novas possibilidades para quem vive com lesões na medula.
Apesar da repercussão, ela afirma que prefere manter os pés no chão e reforça que a pesquisa ainda precisa passar por etapas importantes antes de se transformar em um tratamento disponível em larga escala.
Para a cientista, o objetivo continua sendo o mesmo que motivou décadas de trabalho no laboratório: transformar conhecimento científico em soluções que possam melhorar a vida das pessoas.