No Dia dos Avós, 26 de julho, o Brasil não está só celebrando o carinho de quem oferece balas escondidas e conta histórias do tempo “em que tudo era mato”. A data escancara um debate urgente: como estamos lidando com o envelhecimento da população em uma sociedade que ainda idolatra a juventude e marginaliza rugas, bengalas e cabelos brancos.
Enquanto a estética do “eternamente jovem” dita padrões até nas redes sociais, mais de 30 milhões de brasileiros com mais de 60 anos encaram o país real — aquele em que filas do SUS, aposentadorias precárias e lares negligenciados se tornam rotina. A imagem idealizada do vovô feliz com o netinho no colo esconde, muitas vezes, uma rotina de abandono, invisibilidade e solidão. Ser idoso no Brasil é, quase sempre, um exercício de resistência.
A romantização do papel dos avós como figuras doces e disponíveis esbarra no cenário concreto: boa parte deles sustenta famílias inteiras, cuida de netos em tempo integral e ainda é vítima de violência dentro de casa. É o afeto sobrecarregado. O carinho, sim — mas muitas vezes sem suporte, sem rede, sem política pública que banque esse afeto quando ele se torna insustentável sozinho.
Há também uma mudança de perfil: os avós de 2025 não são os mesmos dos anos 1990. Têm redes sociais, praticam yoga, viajam, têm vida sexual ativa e, muitas vezes, precisam lutar para serem levados a sério como adultos com desejo, opinião e autonomia. O problema é que a estrutura social ainda trata o idoso como um ser passivo, dependente e desprovido de desejo. Um erro crasso.
O que deveria ser uma celebração da experiência e da memória vira, ano após ano, um lembrete incômodo: falhamos em transformar o Brasil em um país amigo dos idosos. As leis existem, os estatutos estão aí, mas o cotidiano mostra que garantir dignidade para quem envelhece ainda está mais no papel do que na prática. É bonito postar foto com a avó no Instagram — mais difícil é garantir que ela tenha atendimento médico digno e companhia fora do Natal.
Neste 26 de julho, talvez o mais honesto não seja presentear com flores, mas com escuta, com presença e, principalmente, com cobrança política. Porque cuidar de quem cuida é mais que gesto simbólico. É urgência social.
Fonte: Wikipedia, Senado, Agenciagov e Gov.