COP30: Brasil usa evento para salvar o planeta para lucrar com cada travesseiro
A primeira vez que o Brasil vai sediar a COP deveria ser um marco para a diplomacia ambiental do país. Um evento histórico, na Amazônia, com toda a simbologia de um futuro mais verde, justo e sustentável. Mas o que a gente está vendo até agora é um espetáculo desorganizado, caro e com cheiro forte de oportunismo. E não é exagero.
Pontos Principais:
- Delegações do Sul Global ameaçam boicote por preços abusivos na hospedagem.
- Hotéis cobram até 10 vezes mais e governo admite que não pode controlar valores.
- Setor hoteleiro acusa COP30 de desorganização e nega culpa pelo caos.
- Organização teme que crise de logística ofusque pauta climática da conferência.
- COP30 está marcada para novembro em Belém e não há plano B, segundo o Itamaraty.
Como se já não bastasse o descrédito internacional que o Brasil acumulou nos últimos anos na pauta ambiental, agora a gente corre o risco de manchar ainda mais a imagem por algo que nem deveria ser uma questão: o preço das diárias de hotel. Tem lugar cobrando até dez vezes mais do que o normal. É isso mesmo. Dez vezes. Uma cidade que se propõe a receber o mundo não pode tratar o visitante como um cofre ambulante.

Claro que é natural que o comércio local queira lucrar com a chegada dos gringos. Vai ser uma avalanche de diplomatas, técnicos, jornalistas e curiosos. Mas tudo tem limite. E os limites foram ultrapassados sem cerimônia. Transformaram um evento internacional num pretexto para uma espécie de assalto institucionalizado com ar-condicionado e vista para o rio.
A situação chegou num ponto tão absurdo que países do Sul Global — que deveriam ser protagonistas no debate climático — já ameaçaram boicotar o evento. E com razão. O preço da hospedagem ficou tão proibitivo que algumas delegações cogitam nem vir. Isso não é só um problema logístico. É simbólico. Mostra que o Brasil está tropeçando feio na própria promessa de acolher um debate global.
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O mais triste é que esse turismo internacional, raríssimo na região, poderia ser a chance de ouro para apresentar o Pará ao mundo. Mostrar a beleza, a diversidade e o potencial de um lugar que ainda é marginalizado nos roteiros tradicionais. Mas ao invés disso, o que esses visitantes vão levar na bagagem é um relatório de preços inflacionados e má vontade.
Quem visita a Amazônia deveria sair com vontade de voltar. Com histórias de hospitalidade, de cultura, de comida, de floresta. Em vez disso, corremos o risco de virar piada de corredor diplomático. E tudo por uma ganância míope que não enxerga o amanhã. Um amanhã que, ironicamente, é exatamente o que a COP tenta preservar.
É uma vergonha. Uma palavra simples, direta e precisa. Porque o que está em jogo aqui não é só uma conferência. É a reputação do Brasil como anfitrião, como parceiro e como líder ambiental. E a gente está falhando nos três quesitos.
Falar em sustentabilidade enquanto se explora o próximo é contraditório. Mas fazer isso na COP30, que se vende como o evento global pela sustentabilidade, beira o cinismo. É como oferecer água em garrafa plástica num simpósio contra o plástico: bonito por fora, podre por dentro.
A resposta do governo foi criar um grupo de trabalho para “negociar” com os hotéis. Tarde demais. A desorganização virou manchete. A imagem de Belém como sede virou alvo de críticas. E o debate, que deveria ser sobre metas climáticas, virou uma discussão sobre quanto custa uma cama limpa.
A 30ª Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP 30) está agendada para ocorrer em Belém, no Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro deste ano. É a primeira vez que o Brasil sediará o evento, que é realizado anualmente e reúne autoridades e especialistas de todo o mundo, incluindo chefes de Estado. Que não seja também a última por pura incompetência.


































