O futuro é rápido com carros elétricos, mas a saudade do “motor raíz” pode custar caro para a indústria

No episódio Past, Present or Future, Clarkson contrapõe um V12 barulhento a um elétrico silencioso e levanta o debate entre emoção, nostalgia e a revolução dos carros elétricos.
Publicado por em Opinião dia
O futuro é rápido com carros elétricos, mas a saudade do “motor raíz” pode custar caro para a indústria

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Eu estava no sofá, distraído, quando dei play em The Grand Tour. Não era a primeira vez que eu via aquele episódio, mas era uma daquelas noites em que a gente assiste com mais calma, sem celular na mão, prestando atenção nos detalhes. A série está no Amazon Prime Video, disponível no Brasil, e o episódio é Past, Present or Future, da segunda temporada. Um título simples, quase didático, mas que esconde uma das discussões mais honestas já feitas sobre carros elétricos na TV.

Logo de cara, o clima muda. A câmera acompanha Jeremy Clarkson entrando em um túnel com um Lamborghini Aventador S. O V12 enche o espaço fechado, o som rebate nas paredes, vibra no peito, quase incomoda. Não é um barulho bonito no sentido técnico. É um barulho visceral. É aquele som que faz você sorrir sem perceber, mesmo sabendo que aquilo não faz o menor sentido prático.

Do outro lado da tela, quase como um tapa silencioso na cara, surge o Rimac Concept One. Mais rápido, mais moderno, mais tudo no cronômetro. E absolutamente quieto. Ele dispara como um míssil, mas sem drama, sem trilha sonora, sem ritual. É eficiente. É impressionante. E, para muita gente, é frio.

Clarkson nunca foi sutil, e ali ele nem tenta. O que ele está dizendo não é que carros elétricos são ruins. Ele está dizendo que falta alma. E isso bate diferente em quem cresceu amando carro não só como objeto, mas como experiência. Para quem lembra do primeiro carro do pai, do cheiro do combustível no posto, do motor falhando numa manhã fria, do ponteiro do conta-giros subindo com esforço.

Eu senti isso na hora. Não como alguém resistente ao novo, mas como alguém que entende de onde vem essa sensação de perda. Carro sempre foi mais do que ir do ponto A ao ponto B. Sempre foi barulho, vibração, imperfeição. Sempre foi emoção misturada com mecânica.

A nova geração olha para isso e enxerga exagero. Cresceu com tela, silêncio, tecnologia invisível. Para eles, o carro elétrico faz todo o sentido. É rápido, é limpo, é direto. Não pede esforço, não exige paciência. Aperta o acelerador e pronto. Talvez o problema não seja o carro elétrico. Talvez seja o choque de culturas.

A indústria percebeu esse vazio emocional e resolveu tentar tapar o buraco com criatividade. Sons artificiais. Barulho falso. Alto-falantes simulando motor. Eu confesso que isso me incomoda. Não porque seja errado, mas porque soa como fantasia mal resolvida. Emoção não nasce de arquivo de áudio. Emoção vem de contexto, de história, de memória.

É aí que os híbridos entram como um meio-termo curioso. Eles ainda fazem barulho quando precisam, mas sabem ficar quietos quando convém. Eles permitem que você sinta algo no volante e, ao mesmo tempo, convivem com a cidade moderna. Não são perfeitos, mas parecem entender melhor o conflito de quem gosta de dirigir e, ao mesmo tempo, aceita que o mundo mudou.

O episódio vai avançando e, junto com ele, essa sensação agridoce. Não é raiva do futuro. É saudade do passado. É nostalgia pura. Aquela mesma nostalgia que faz a gente ouvir música antiga no carro, mesmo com Spotify oferecendo milhões de opções novas.

Quando o Aventador sai do túnel e o som desaparece, fica um silêncio simbólico. Não só do motor, mas de uma era inteira que começa a se despedir. Os carros elétricos não vão desaparecer. Pelo contrário, eles já venceram. Eles são o futuro, goste a gente ou não.

A questão que fica, e que Clarkson escancara com humor e exagero, é outra. Será que, no meio dessa revolução elétrica, a gente vai aprender a se emocionar de um jeito diferente? Ou será que parte da emoção vai ficar pelo caminho, guardada em túneis, lembranças e motores que não voltam mais?

Eu terminei o episódio com um sorriso meio torto. Não de tristeza, mas de reconhecimento. Porque, no fim, gostar de carro sempre foi isso. Um misto de razão e paixão, de progresso e saudade. E talvez aceitar os elétricos seja, também, aprender a sentir de outro jeito, sem esquecer por que tudo isso começou.

Alan Corrêa
Alan Corrêa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.