Carro elétrico: valor dos usados passa a ser decidido pelo estado da bateria
Pontos Principais:
- Carros elétricos usados passam a ter o valor definido principalmente pela saúde da bateria.
- O indicador SOH começa a substituir a quilometragem como referência de desgaste.
- Laudos e histórico de diagnóstico ganham peso na compra e na revenda.
- Transparência sobre a bateria aumenta a confiança e reduz riscos para o comprador.

O mercado brasileiro de carros elétricos usados entrou em 2026 numa fase decisiva, com a saúde da bateria passando a determinar preço, confiança e liquidez na revenda. Modelos que até ontem eram novidade, como BYD Dolphin, GWM Ora 03 e Renault Kwid E-Tech, já aparecem com frequência nos classificados, e mudam o foco do comprador: não é mais só autonomia ou recarga, é quanto dessa autonomia ainda existe de verdade.
Quem procura um elétrico de segunda mão começa a perceber que o coração do carro não é mais o motor, mas o conjunto de células que guarda energia. E, diferente do tanque de combustível, ele envelhece. Devagar, quase sempre de forma previsível, mas envelhece. É aí que entra o SOH (State of Health), índice que mostra quanta capacidade a bateria preserva em relação ao que tinha quando saiu da fábrica.
Na prática, é o novo “quilometragem”. Um carro pode indicar 100% no painel e, ainda assim, carregar menos do que quando era novo. O número que interessa é outro: quanto daquela bateria ainda está inteira. E esse dado começa a influenciar a negociação, a aceitação em lojas e até o valor de troca.
“Quando alguém me pergunta como avaliar um elétrico usado, eu explico que no carro a combustão a gente olha o hodômetro, quantos quilômetros rodou, como foi mantido, se o motor ainda está inteiro. No elétrico, essa lógica muda. O número que realmente importa é a saúde da bateria, porque é ela que conta a história do uso, do tipo de recarga, do calor que enfrentou e de quanto fôlego ainda resta para o dia a dia.” – Opinião do Autor
Concessionárias e empresas de vistoria já entenderam o recado. Além da inspeção estrutural e documental, surgem laudos com leitura dos módulos de bateria, temperatura de operação, histórico de carga e degradação. Para o vendedor, isso vira argumento. Para o comprador, vira proteção.
O que realmente muda na compra de um elétrico usado
Diferente do mito de que “bateria morre de repente”, o que se vê na prática é um desgaste lento, constante e mensurável. Dados de frotas internacionais e relatos de usuários mostram que, mesmo após 100 mil km, a maioria dos carros ainda mantém boa parte da capacidade original, desde que não tenha sido submetida a abusos como carga rápida diária ou calor extremo.
O problema é que nem todo histórico é igual. Um carro que viveu em tomada lenta, climatização correta e revisões em dia envelhece melhor do que outro que passou a vida em carregadores rápidos e altas temperaturas.
Como o mercado começa a classificar a saúde da bateria
| Faixa de SOH | Condição prática | Impacto no valor |
|---|---|---|
| 90% a 100% | Bateria próxima do novo | Preço cheio ou valorizado |
| 80% a 89% | Desgaste normal de uso | Negociação leve |
| 70% a 79% | Autonomia já reduzida | Desconto relevante |
| Abaixo de 70% | Uso limitado | Venda difícil |
Esses números não são absolutos, mas dão a referência que o mercado começa a usar. Abaixo de 80%, a conversa muda. Abaixo de 70%, o carro perde atratividade e liquidez.
O que checar antes de comprar um carro elétrico usado
- Saúde da bateria (SOH) e relatório de diagnóstico em concessionária
- Histórico de recargas, uso frequente ou não de carga rápida
- Autonomia real atual em comparação com a de quando era novo
- Garantia remanescente do conjunto de baterias
- Atualizações de software e campanhas técnicas realizadas
- Histórico de revisões e manutenção do sistema elétrico
- Condição do sistema de arrefecimento da bateria
- Laudo cautelar com verificação dos módulos e eletrônica
- Tempo de uso em regiões de calor intenso
- Custo e disponibilidade de peças e assistência técnica da marca
Não é burocracia, é proteção. Assim como ninguém compra um usado sem olhar motor e câmbio, cada vez menos gente fecha negócio sem saber como está o conjunto que custa mais caro no carro.
Transparência vira diferencial de valor
Na revenda, quem apresenta laudo, histórico e leitura de SOH larga na frente. O carro ganha credibilidade e evita a desconfiança que hoje ainda ronda os elétricos usados. Aos poucos, o medo dá lugar a critérios objetivos.


































