Cheguei no estacionamento sem expectativa nenhuma, só com a rotina de sempre: parar o meu Mitsubishi Eclise Cross, pegar o carrinho e resolver a vida. Mas antes mesmo de desligar o motor, um detalhe na fileira da frente capturou minha atenção. Era ele: um Volkswagen Tera 2026. O carro que a Volkswagen insiste em vender como a nova estrela urbana, o SUV que aparece em propagandas com drones, trilhas sonoras épicas e ângulos milimetricamente calculados para parecer maior do que realmente é. Só que ali, sob o sol meio sem graça da tarde, estacionado ao lado de carros de guerra do dia a dia, ele parecia outra coisa.
De longe, confesso, achei pequeno. Na propaganda, parece que o Tera briga de frente com SUVs parrudos; na vida real, ele tem mais cara de hatch vitaminado que vestiu jaqueta esportiva. Mas à medida que fui chegando perto, os detalhes se destacaram: faróis em LED com desenho afiado, traseira curta e ajeitada, rodas que, embora não gritassem imponência, davam um ar moderno. Era como se o carro estivesse dizendo: “olha, não sou tão grande quanto pensei que você achava que eu era, mas tenho meu charme”.
O dono estava ali, escorado na lateral, observando o vai e vem de gente com sacolas e carrinhos. Tinha aquela postura típica de quem sabe que vai ser abordado — porque dirigir um carro novo, ainda pouco visto nas ruas, é quase convite público para perguntas. E como bom jornalista, não perdi a chance. Me aproximei com aquele tom informal, meio cúmplice: “E aí, o que está achando do brinquedo novo?”
Ele riu antes de responder. E foi direto: “É um carro bacana. Faz um consumo bem legal, não tenho do que reclamar”. E aí veio a primeira quebra de expectativa. Não era aquele discurso apaixonado de quem defende a compra a qualquer custo, mas também não era arrependimento. Era um meio-termo honesto, como quem reconhece que o carro cumpre o que promete em eficiência. Em tempos de combustível com preço de coquetel em rooftop, isso já é um baita argumento.
Mas quando o papo virou para o espaço interno, o sorriso deu lugar a um levantar de sobrancelha. “Aí já não é tão simples”, disse, gesticulando para o banco traseiro. Ele contou que tem um filho adulto, e que numa viagem recente o rapaz ficou desconfortável lá atrás. Ombros espremidos, pernas encostando no banco da frente, aquela sensação de que a cada curva você precisa se reorganizar no espaço minúsculo. “Pro dia a dia dá, mas estrada longa não rola tão bem”, resumiu.
Essa frase ficou martelando na minha cabeça. Porque o Tera, na narrativa oficial da Volkswagen, é vendido como solução para tudo: urbano, aventureiro, tecnológico e ainda por cima familiar. Mas a vivência real mostra que ele é mais “carro de shopping” do que “carro de estrada longa com sogra, cachorro e bagagem”. No fundo, é um SUV que não quer ser SUV de verdade — e talvez esse seja justamente o ponto que a marca não tenha coragem de assumir.
Enquanto ele falava, voltei a analisar o carro com outros olhos. Ao vivo, é bem mais simpático que nas fotos frias de estúdio. A iluminação do estacionamento fazia brilhar os detalhes da grade e as lanternas em LED pareciam mais sofisticadas do que no configurador online. É como conhecer alguém pelo Tinder e descobrir que pessoalmente a pessoa tem um carisma inesperado, embora não seja tão alta quanto dizia o perfil.
Saí dali com a sensação de que o Tera não é um carro para impressionar multidões ou resolver a vida de quem precisa de espaço de sobra. É para quem roda em ambiente urbano, quer economia e um visual que não passa batido. Só que essa percepção só veio depois da conversa franca com o dono, e não por causa das campanhas de marketing da marca. E talvez esse seja o maior aprendizado: nenhum anúncio consegue competir com a sinceridade de quem já pegou trânsito, já levou compras no porta-malas e já tentou acomodar um adulto no banco traseiro.
Fonte: Vwnews.