A fábrica de veículos elétricos da Xiaomi em Pequim virou atração turística, com visitas disputadas por sorteio. A cada 76 segundos, um carro deixa a linha de montagem, fruto de um processo altamente automatizado que a empresa faz questão de comparar com a Tesla. O movimento faz parte de uma estratégia para consolidar a marca como gigante da tecnologia e não apenas uma montadora dependente de fornecedores.
A resposta dos consumidores chineses tem sido imediata. O primeiro sedã esportivo, batizado de Speed Ultra 7, foi lançado em março do ano passado e rapidamente se tornou um dos mais vendidos do país. Já o SUV YU7 recebeu 200 mil pré-encomendas em apenas três minutos, feito considerado histórico pelo fundador Lei Jun. O entusiasmo se refletiu também na Bolsa: as ações da Xiaomi saltaram quase 200% em um ano.
A trajetória da empresa contrasta com suas origens modestas. Fundada em 2010, a Xiaomi se destacou pela rapidez em se tornar a terceira maior fabricante de celulares do mundo, mas sempre sofreu críticas por depender em excesso de fornecedores externos. Analistas chegaram a compará-la a uma “montadora de Lego”, capaz apenas de juntar peças produzidas por outros.
Lei Jun decidiu reverter essa imagem a partir de 2020, quando inaugurou uma fábrica para produzir modelos premium de smartphones. A aposta em internalizar a produção mostrou resultado: os celulares mais caros tiveram crescimento de 81% nas vendas, muito acima da média do mercado. O mesmo caminho foi seguido agora com os carros elétricos, num esforço de integração vertical e busca por maior controle tecnológico.
A Xiaomi investe ainda em insumos estratégicos. Desenvolveu uma liga de alumínio exclusiva, aço ultrarresistente e moldes próprios para carrocerias. Mais recentemente, lançou o Xring O1, um chip de 3 nanômetros projetado internamente e fabricado pela TSMC. Esse movimento coloca a empresa no mesmo patamar de gigantes como Apple, Samsung e Huawei, garantindo maior independência frente a riscos de sanções internacionais.
A visão do fundador se alinha a diretrizes do governo chinês, que incentiva companhias a fortalecerem a capacidade produtiva doméstica. A expansão inclui a segunda fase da fábrica de carros, que dobrará a capacidade anual para 350 mil unidades, além de uma nova planta de aparelhos de ar-condicionado em Wuhan. O objetivo é consolidar um ecossistema integrado em que celulares, eletrodomésticos e automóveis dialoguem entre si.
Segundo analistas, a aposta em fábricas próprias e em chips avançados define uma fronteira clara entre empresas capazes de inovar e as que permanecerão dependentes de terceiros. Para a Xiaomi, esse é o caminho para se tornar uma das líderes globais da tecnologia, deixando de ser lembrada apenas como fabricante de celulares baratos para disputar diretamente com Tesla e Apple em mercados estratégicos.