A megaoperação que revelou o envolvimento da facção criminosa PCC em um esquema de adulteração de combustíveis expôs uma prática de alto risco para motoristas e para a saúde pública. O grupo importava metanol em larga escala para misturar em gasolina e etanol, aproveitando o baixo custo de produção do composto, derivado do gás natural, e a dificuldade de detecção nos testes tradicionais de fiscalização.
Especialistas destacam que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) permite apenas até 0,5% de metanol nos combustíveis, por ele poder surgir como subproduto na produção do etanol. No entanto, em alguns postos investigados, a concentração chegava a até 90%, transformando o abastecimento em um risco oculto para motoristas e veículos. O problema se agrava porque, ao contrário da água, o metanol não se separa do combustível nos testes, dificultando sua identificação.
A diferença entre metanol e etanol está não apenas na origem, mas no desempenho energético. O etanol, produzido a partir da cana-de-açúcar, fornece até 25% mais energia que o metanol, derivado do gás natural. Na prática, quem pensa estar enchendo o tanque com etanol, mas recebe metanol, roda menos e sofre queda imediata no rendimento do carro.
Além da perda de desempenho, os danos mecânicos são severos. Motores calibrados para etanol sofrem com mistura pobre, combustão mais lenta e excesso de calor, o que pode levar ao superaquecimento, queima de válvulas e até derretimento de velas de ignição. O efeito corrosivo do metanol também compromete plásticos e borrachas, exigindo troca de componentes em pouco tempo.
O impacto ambiental é igualmente preocupante. A combustão inadequada gera maior volume de poluentes, enquanto um derramamento no solo faz o metanol penetrar rapidamente até o lençol freático, contaminando reservas de água potável. A toxicidade do composto amplia os riscos, afetando tanto a mecânica quanto a saúde humana.
Os tipos de metanol variam em sustentabilidade. O cinza, derivado do gás natural ou carvão, é o mais comum e poluente. O azul, produzido com captura parcial de carbono, reduz emissões, mas ainda depende de fonte fóssil. Já o verde, obtido por meio de hidrogênio limpo e CO₂ com energia renovável, é considerado a versão mais sustentável. No entanto, nenhum deles deve ser usado de forma fraudulenta em veículos sem adaptação.
A indústria automotiva já utilizou metanol como combustível, principalmente na Fórmula Indy, onde foi empregado até 2022 antes da migração para etanol 100% renovável. Apesar de seu potencial para alta performance, a corrosão sempre foi um obstáculo ao uso em larga escala em carros comuns. Hoje, sua presença irregular nos postos representa não inovação, mas um crime que ameaça diretamente motoristas e o meio ambiente.