Por que a palavra ‘acidente’ foi substituída por ‘sinistro’ no trânsito?

A NBR 10697 e a Lei 14.599 abandonam o termo “acidente” e adotam “sinistro” para deixar claro que esses eventos não são obra do acaso, têm causas concretas e podem ser evitados.
Publicado por em Brasil dia | Atualizado em

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A alteração passou quase despercebida, mas carrega um peso conceitual claro. A NBR 10697 deixou de reconhecer oficialmente o termo “acidente de trânsito” e passou a adotar “sinistro de trânsito”, encerrando uma discussão técnica antiga dentro da ABNT. Em levantamentos de campo, especialistas já apontavam que “acidente” transmite a ideia de fatalidade, como se colisões e mortes fossem inevitáveis. A mudança busca romper com essa lógica. O novo entendimento ganhou força jurídica ao ser incorporado pela Lei 14.599, que atualizou o Código de Trânsito e oficializou o termo no país.

Essa discussão nasceu das equipes que analisam ocorrências diariamente. Peritos, agentes e especialistas em mobilidade mostravam que a maior parte dos registros tinha causas claras, como excesso de velocidade, desrespeito à sinalização ou uso do celular ao volante. Estudos citados por esses grupos apontavam que mais de 90% das ocorrências envolviam falha humana, o que colocou pressão para rever a forma como o país nomeava esses eventos. A palavra acidente passava a impressão de inevitabilidade e isso, segundo profissionais de segurança viária, enfraquecia ações e percepções de prevenção.

O uso de sinistro começou a se espalhar primeiro nos boletins técnicos e, em seguida, em campanhas de órgãos públicos. O Dnit, por exemplo, reforçou a definição de sinistro como qualquer evento que gere dano material, lesão ou prejuízo ao trânsito envolvendo ao menos um veículo em movimento. Com a padronização, governos estaduais e municipais passaram a alinhar estatísticas, facilitando o mapeamento de pontos críticos e o planejamento de políticas públicas. A adoção do termo também ajudou na comunicação com a sociedade, já que coloca responsabilidade e prevenção no centro da discussão.

Na prática, essa mudança alterou o modo como autoridades explicam o problema. Campanhas de educação deixaram de tratar colisões como fatalidades imprevisíveis e passaram a apresentar fatores que podem ser controlados pelo motorista. Isso reforça ações de fiscalização e incentiva condutores a compreender que grande parte das ocorrências pode ser evitada. A transição ainda convive com o uso popular de acidente, mas o termo técnico já se firmou nos relatórios oficiais e no discurso dos órgãos de trânsito, marcando um novo capítulo na forma como o Brasil interpreta e enfrenta a violência viária.

Pablo Silva
Pablo Silva
Especialista em jornalismo automotivo, analisa carros com olhar técnico e paixão por motores. Produz reportagens exclusivas e detalhadas para o Carro.Blog.Br.