O governo federal renovou a cota de importação sem imposto para veículos elétricos desmontados e semimontados, decisão que pode aliviar custos de marcas que montam esses modelos no Brasil, mas provocou reação imediata das fabricantes já instaladas no país.
A medida foi aprovada nesta terça-feira, 23 de junho, pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior. A partir de 1º de julho, empresas poderão importar até US$ 463 milhões em kits durante seis meses sem recolher o tributo.
O benefício alcança veículos CKD, que chegam desmontados, e SKD, trazidos parcialmente montados. Depois que a cota for consumida, o imposto será de 14% para CKD e de 35% para SKD. Automóveis que chegam completamente prontos não foram incluídos no limite anunciado.
A renovação evita que todos os kits importados entrem imediatamente no cronograma de elevação tarifária. Na prática, o mecanismo pode reduzir a pressão sobre os custos de modelos elétricos montados localmente com peças trazidas do exterior.
O prazo anterior havia terminado em 31 de janeiro de 2026. Sem uma nova autorização, esses veículos voltariam ao calendário que elevará a alíquota para 35% em janeiro de 2027.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços relacionou a decisão à renovação da frota, à inovação e à redução das emissões de dióxido de carbono. Fabricantes chinesas, entre elas BYD e Geely, já iniciaram projetos de produção no Brasil.
A Anfavea classificou a renovação como prejudicial aos trabalhadores, às montadoras nacionais e às empresas de autopeças. Segundo a entidade, a alteração ocorreu sem consulta ao setor produtivo e modificou uma política utilizada como referência para decisões de investimento.
Volkswagen, Stellantis, General Motors e Toyota já haviam enviado uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a concessão do benefício. As empresas argumentaram que a importação de kits poderia reduzir a demanda por fornecedores, mão de obra, engenharia e tecnologia desenvolvida no país.
A BYD respondeu que a resistência das fabricantes tradicionais estaria ligada à entrada de uma concorrente com preços e tecnologias capazes de alterar o equilíbrio do mercado brasileiro.
Dados apresentados pela Anfavea mostram que os emplacamentos de eletrificados importados cresceram 214% entre 2023 e 2025. As fabricantes anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, enquanto os veículos eletrificados produzidos no Brasil representaram 25,9% das vendas do segmento em 2025.
No acumulado até maio de 2026, as vendas de eletrificados fabricados no país cresceram 57% sobre o mesmo período do ano anterior. A nova cota permanecerá válida por seis meses, período em que governo, montadoras e importadores continuarão discutindo qual participação será reservada à produção nacional na expansão da mobilidade elétrica.
Foto de capa: Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita à linha de montagem de veículos da BYD em Camaçari – BA. Foto: Ricardo Stuckert / PR.