O próximo Peugeot 208 poderá mudar uma das partes mais tradicionais de um automóvel: a ligação entre o volante e as rodas dianteiras. A marca francesa apresentou o E-T16 Concept, um hatch elétrico de 816 cv que acelera de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos, mas a tecnologia mais importante para os futuros proprietários pode ser um sistema de direção que dispensa a conexão mecânica convencional.
O protótipo antecipa soluções previstas para a próxima geração de compactos da Peugeot, incluindo o 208 e sua versão elétrica, o E-208. Entre elas está o Hypersquare, um volante retangular acompanhado de direção eletrônica steer-by-wire, na qual os comandos do motorista são transmitidos eletronicamente às rodas.
É uma mudança maior do que o formato do volante sugere. Nos sistemas convencionais, existe uma ligação mecânica entre o comando do motorista e as rodas. Na direção steer-by-wire, essa tarefa passa a depender de sensores, componentes eletrônicos e atuadores. A tecnologia permite alterar a resposta da direção conforme a velocidade e as condições de condução.
Para quem compra um carro e pretende mantê-lo durante muitos anos, essa mudança também levanta perguntas sobre manutenção e reparos. Ainda não há informações suficientes sobre os custos de substituição dos componentes, sua durabilidade ou o funcionamento do sistema nas futuras versões de produção do 208.
O interior do E-T16 apresenta outra transformação. Uma tela panorâmica curva de 21 polegadas reúne informações do veículo e funções multimídia. O motorista também encontra um pequeno visor no próprio volante, capaz de apresentar velocidade e outras informações. A Peugeot pretende aproximar os comandos do campo de visão de quem dirige.
O conceito utiliza uma nova geração do i-Cockpit, conjunto de instrumentos e comandos que caracteriza os carros da marca. A proposta é levar parte dessas soluções aos futuros veículos de produção, embora ainda não esteja confirmado quais equipamentos serão oferecidos em cada versão.
O restante do protótipo tem uma finalidade diferente: demonstrar até onde a engenharia da Peugeot Sport consegue levar um hatch elétrico. São três motores, um dianteiro e dois traseiros, responsáveis por distribuir os 816 cv entre as quatro rodas. O sistema controla individualmente a força enviada às rodas traseiras, procurando aproveitar a aderência disponível.
A aceleração de 0 a 300 km/h em 16 segundos coloca o E-T16 em um território normalmente ocupado por superesportivos. Para controlar essa potência, a Peugeot instalou discos de freio de 380 milímetros nas quatro rodas, pneus de 275 milímetros na dianteira e 315 milímetros na traseira, além de um freio de mão hidráulico vertical inspirado nos carros de rali.
A bateria de 85 kWh utiliza arquitetura elétrica de 800 volts e permite autonomia declarada de até 400 quilômetros pelo ciclo europeu WLTP. A fabricante informa que a recarga de 10% a 80% pode ser realizada em menos de 15 minutos, nas condições adequadas. Esses números não representam a autonomia do futuro E-208, que ainda terá suas próprias especificações.
Existe uma diferença importante entre acelerar rapidamente uma vez e conseguir repetir esse desempenho. Em veículos elétricos de alta potência, o aquecimento da bateria pode obrigar o sistema a reduzir a força dos motores. A Peugeot desenvolveu um resfriamento pelas laterais das células e afirma que o E-T16 consegue percorrer mais de 60 quilômetros em ritmo de pista, equivalentes a três voltas no circuito de Nürburgring Nordschleife, sem perder potência por excesso de temperatura.
A aparência também tem uma explicação histórica. O conceito comemora os 40 anos dos títulos mundiais de rali conquistados pelo Peugeot 205 T16 em 1985 e 1986. Os para-lamas alargados, a pintura cinza, a faixa vermelha iluminada e a traseira que se abre inteiramente recuperam características daquele carro de competição.
Na parte traseira, a abertura expõe os motores elétricos e os componentes da suspensão. O desenho ainda inclui uma grande asa aerodinâmica, difusor com elementos ajustáveis e entradas de ar distribuídas pela carroceria. Parte dessas soluções atende às necessidades de um veículo de alto desempenho, enquanto a assinatura luminosa de três barras horizontais apresenta elementos da nova identidade visual da fabricante, chamada Feline Future.
O E-T16 não tem preço anunciado nem previsão de produção em série. A Peugeot já possui o E-208 GTi elétrico em sua linha, mas não confirmou que pretende fabricar uma versão de rua com os três motores e os 816 cv do protótipo.
Para o mercado brasileiro, a questão mais relevante está no que poderá ser aproveitado pelo próximo 208. O desenho, os comandos eletrônicos e o novo painel têm maior ligação com os futuros carros vendidos ao público do que os números extremos de aceleração.
Quarenta anos depois de conquistar o Mundial de Rali com o 205 T16, a Peugeot utiliza novamente um esportivo para apresentar suas ambições tecnológicas. Desta vez, porém, a mudança com maior possibilidade de alcançar os carros comuns não está debaixo do capô, mas nas mãos do motorista.
Com informações do Stellantis.