Energia nuclear do futuro com ESG: por que o tório pode desafiar o domínio do urânio

Tório pode ampliar a energia limpa com reatores mais seguros, maior eficiência e menor geração de resíduos, segundo estudos e projetos em desenvolvimento no setor nuclear.
Publicado por em Ciência dia
Energia nuclear do futuro com ESG: por que o tório pode desafiar o domínio do urânio
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Em meio à corrida global por fontes de energia capazes de reduzir emissões sem comprometer a estabilidade do fornecimento elétrico, um velho conhecido da tabela periódica voltou ao centro do debate: o tório. Mais abundante que o urânio e apontado como alternativa promissora para reatores mais seguros, o elemento começa a ganhar espaço em estudos científicos, projetos experimentais e estratégias energéticas de longo prazo.

A discussão não é nova, mas ganhou fôlego diante da necessidade de ampliar a oferta de eletricidade limpa sem depender exclusivamente de fontes intermitentes, como solar e eólica. O tório, segundo estimativas técnicas amplamente divulgadas no setor, é cerca de quatro vezes mais abundante que o urânio, combustível predominante nas usinas nucleares atuais. Essa disponibilidade natural já é vista como um diferencial estratégico relevante.

Mais abundante e potencialmente mais eficiente

Do ponto de vista energético, o interesse é direto. Estudos indicam que uma tonelada de tório pode gerar energia equivalente à produzida por aproximadamente 200 toneladas de urânio. A comparação chama atenção porque sugere maior eficiência no uso do combustível, com menor volume de material necessário para produzir grandes quantidades de eletricidade.

O tório é encontrado naturalmente em minerais como a monazita, presente em diferentes regiões do planeta. Ao contrário do urânio, porém, ele não sustenta sozinho uma reação nuclear em cadeia. Precisa ser convertido em urânio-233 dentro do reator para se tornar combustível utilizável. Essa característica altera o funcionamento do sistema e exige controle constante do processo, o que especialistas consideram um fator de previsibilidade operacional.

Além da eficiência energética, a distribuição geográfica das reservas também pesa no debate. Como depósitos de tório estão espalhados por vários países, o elemento pode reduzir a dependência de regiões tradicionalmente associadas à produção de urânio, ampliando a segurança energética global.

Reatores de sal fundido e segurança passiva

Grande parte das pesquisas associadas ao tório envolve os chamados reatores de sal fundido, conhecidos como MSR. Diferentemente dos modelos convencionais, que utilizam barras sólidas de combustível, esses sistemas operam com o material nuclear dissolvido em sais líquidos.

Nesse formato, o combustível circula em estado líquido sob pressão próxima à atmosférica, reduzindo riscos ligados ao acúmulo de pressão interna. Outro ponto frequentemente destacado é a chamada segurança passiva. Projetos de MSR incluem mecanismos físicos que interrompem automaticamente a reação nuclear em caso de superaquecimento. Se a temperatura ultrapassa o limite previsto, um dispositivo pode derreter e permitir que o combustível escorra para tanques de resfriamento, onde se solidifica, encerrando a reação.

A proposta não elimina todos os desafios, mas busca reduzir a probabilidade de acidentes graves, como o derretimento do núcleo observado em crises envolvendo reatores tradicionais. Além disso, esses sistemas podem operar em temperaturas mais elevadas, aumentando a eficiência na conversão de calor em eletricidade.

Pequenos reatores e fornecimento de longa duração

Outra vertente em desenvolvimento envolve pequenos reatores modulares, os SMR. Fabricados em módulos compactos e transportáveis, alguns projetos experimentais são concebidos para caber em contêineres padrão, o que pode simplificar logística e instalação.

Há propostas que utilizam tório como combustível principal e são projetadas para operar por até 10 anos antes da substituição do material nuclear. A ideia é oferecer geração contínua de energia com menor necessidade de intervenções frequentes, algo especialmente relevante para regiões remotas ou com infraestrutura elétrica limitada.

Em comparação com grandes usinas convencionais, os sistemas modulares tendem a exigir investimentos iniciais menores e permitem expansão gradual da capacidade instalada. No Brasil, qualquer avanço nesse campo dependeria de autorização da Comissão Nacional de Energia Nuclear e do Ministério de Minas e Energia.

Impacto ambiental e gestão de resíduos

Um dos argumentos mais citados a favor do tório está relacionado ao ciclo de resíduos. Estudos técnicos indicam que o combustível pode gerar menor volume de rejeitos radioativos de longa duração quando comparado ao urânio. Parte significativa do material residual perderia grande parte da radioatividade em cerca de 300 anos, prazo consideravelmente inferior ao de alguns rejeitos associados a reatores convencionais, que podem permanecer perigosos por milhares de anos.

Outro ponto frequentemente mencionado é o menor risco de uso militar de subprodutos derivados do ciclo do tório, o que reduz preocupações relacionadas à proliferação nuclear.

Desafios tecnológicos e regulatórios

Apesar do entusiasmo crescente, o caminho para tornar o tório uma base dominante da geração elétrica ainda é longo. A infraestrutura nuclear mundial foi desenvolvida majoritariamente para o urânio, o que significa que a adoção ampla do novo combustível exigiria reatores específicos, investimentos elevados e revisão de marcos regulatórios.

Poucos reatores experimentais operaram com tório até hoje, e a maioria dos projetos permanece em fase de pesquisa ou testes. A certificação de novas tecnologias nucleares é rigorosa e pode levar anos, especialmente diante das exigências de segurança.

Ainda assim, a combinação de abundância natural, potencial eficiência energética e promessa de maior segurança mantém o tório no radar de governos e empresas. Em um mundo que precisa ampliar rapidamente a oferta de energia limpa sem abrir mão da estabilidade do sistema elétrico, o elemento volta a ser tratado não como curiosidade científica, mas como possível peça estratégica de longo prazo.

Alan Corrêa
Alan Correa
Jornalista multimídia e analista de tendências (MTB: 0075964/SP). Com olhar versátil que transita entre o setor automotivo, economia e cultura pop, é especialista em traduzir dinâmicas complexas do mercado e do comportamento do consumidor. No Carro Das Notícias e portais parceiros, assina de testes técnicos e guias de compra a análises de engajamento e entretenimento, sempre com foco em dados e interesse do público.