Polilaminina em revisão: pesquisadora admite falhas e promete nova versão do estudo
A pesquisa sobre a polilaminina, apresentada como uma possível alternativa para lesões na medula espinhal, entrou numa fase menos triunfal e mais realista depois que a própria responsável pelo trabalho reconheceu problemas no texto, falhas em gráfico e necessidade de reescrever trechos do artigo. A pesquisadora Tatiana Sampaio afirmou que vai preparar uma nova versão do estudo, com ajustes na apresentação dos dados e na forma como os resultados foram descritos, embora sustente que a conclusão principal, a defesa da eficácia da substância, permanece a mesma.
O caso ganhou projeção maior no início de 2026, quando a cientista passou a dar entrevistas ao lado de Bruno Drummond, paciente com lesão medular aguda que participou da pesquisa e voltou a andar. A repercussão empurrou a polilaminina para o centro do debate público, mas também trouxe o tipo de escrutínio que costuma chegar depois do entusiasmo, e não junto com ele. Especialistas passaram a apontar inconsistências no pré-print divulgado em fevereiro de 2024, além de questionar se os dados permitiam afirmar que a melhora observada nos pacientes poderia ser atribuída à substância.
O que a autora diz que será corrigido
Segundo Tatiana, a nova redação vai corrigir problemas técnicos, revisar a escrita e reorganizar a exposição dos resultados. Um dos pontos mais sensíveis envolve um gráfico em que o participante 1 aparecia com cerca de 400 dias de acompanhamento, apesar de o próprio texto informar que ele morreu cinco dias após o procedimento. A pesquisadora afirmou que os dados eram, na verdade, do participante 2 e classificou o episódio como erro de digitação.
Outro ponto que será alterado envolve a forma como foi exibido um exame de eletromiografia usado para indicar possível regeneração em um dos casos. A autora disse que a figura estava mal programada e mostrava dados brutos, o que será substituído na nova versão. Também pretende incluir uma análise separando os pacientes por tipo de lesão, com destaque para os quatro participantes com lesões torácicas, que, segundo ela, evoluíram do grau A para o grau C na escala AIS.
- Correção de identificação em gráfico de paciente
- Substituição de figura ligada à eletromiografia
- Revisão de trechos do texto considerados mal escritos
- Nova organização dos dados por tipo de lesão
O que continua sem resposta
A correção de forma não elimina a discussão de fundo. O principal questionamento feito por especialistas é o mesmo desde a divulgação do pré-print: como separar o eventual efeito da polilaminina do impacto de outras intervenções recebidas pelos pacientes. No estudo, todos passaram também por cirurgia precoce de descompressão da coluna e cerca de 200 horas de fisioterapia intensiva. Sem grupo controle, a melhora observada não permite concluir, por si só, que a substância foi a responsável pelo resultado.
Tatiana defende que esse grupo controle não seria necessário e afirma que a comparação com a literatura científica sobre pacientes tratados apenas com cirurgia e fisioterapia seria suficiente. A tese, porém, encontra resistência. Para especialistas ouvidos pela reportagem original, sem comparação com outro grupo, em teste duplo cego ou randomizado, não é possível afirmar que houve efeito da medicação. Na prática, a discussão científica continua onde interessa, na prova, não na esperança.
A nova versão prometida pela pesquisadora tenta aparar erros do texto, mas não elimina a principal cobrança feita por especialistas: demonstrar com método que a melhora observada veio da substância, e não do conjunto de tratamentos aplicados.
O que já aconteceu, e o que ainda não aconteceu
O estudo em humanos citado no pré-print começou em 2018 e envolveu oito pacientes. Antes disso, a molécula já havia sido avaliada em cães. Os resultados atraíram a farmacêutica Cristália, que investiu R$ 100 milhões para transformar a polilaminina em medicamento. Mesmo assim, o caminho regulatório ainda está no começo, não no fim.
- A Anvisa aprovou em janeiro a realização de ensaios clínicos regulatórios em humanos, começando pela fase 1, voltada à segurança em pequeno grupo.
- Segundo o material apresentado, essa etapa ainda está na comissão de ética e não começou.
- Depois disso, ainda seriam necessárias as fases 2 e 3, com avaliação de eficácia, dose adequada e efeitos adversos em grupos maiores.
- Só após essas etapas, e se os resultados forem positivos, poderia haver pedido de registro sanitário.
| Ponto | Situação informada |
|---|---|
| Pré-print original | Divulgado em fevereiro de 2024 |
| Revisão do artigo | Prometida pela pesquisadora |
| Publicação em revista | Ainda não ocorreu |
| Fase 1 regulatória | Aprovada pela Anvisa, mas não iniciada |
| Ações judiciais | Cerca de 40, segundo o laboratório |
| Aplicações por ordem judicial | 19, fora de ensaio clínico formal |
Além da incerteza sobre eficácia, permanece a discussão sobre segurança. O próprio pré-print menciona que mortes por pneumonia e sepse registradas entre participantes poderiam, em princípio, estar ligadas a um possível efeito imunossupressor da substância. Ainda assim, a pressão social em torno do tratamento cresceu, com dezenas de pacientes acionando a Justiça para obter acesso à polilaminina antes do início do ensaio clínico formal, movimento que mostra como o debate já saiu do laboratório, mas ainda não chegou à etapa em que a ciência costuma separar promessa de evidência.














