PCC Faria Lima: OPINIÃO; Ações da PF contra o crime provam que a gasolina adulterada é o real inimigo do motorista

Entre fraudes em combustíveis e fundos milionários, investigações mostram como o PCC blindou bilhões em dez estados brasileiros.
Publicado por em Opinião dia | Atualizado em

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Nos últimos meses, vi muitos motoristas nas ruas, oficinas e redes sociais reclamando da qualidade da gasolina. É comum ouvir queixas sobre rendimento baixo, motores engasgando e até acusações direcionadas à chamada “nova E30”, como se ela fosse a responsável direta por todos os problemas de abastecimento.

Pontos Principais:

  • A Receita Federal identificou adulteração de gasolina e diesel em mais de mil postos em 10 estados.
  • O PCC movimentou cerca de R$ 52 bilhões no setor de combustíveis entre 2020 e 2024.
  • Foram deflagradas três operações da PF e MPSP com mais de 350 alvos em oito estados.
  • O grupo investiu R$ 30 bilhões em fundos na Faria Lima para blindar e ocultar recursos ilícitos.

De certa forma, entendo essa desconfiança. Quando surge uma novidade na composição do combustível, o consumidor associa imediatamente às falhas que sente no carro. Mas a verdade é que, agora, as investigações recentes mostram um cenário muito mais grave e complexo do que a simples adoção de uma nova especificação técnica.

A Receita Federal revelou que o PCC comandava um esquema de adulteração de combustíveis em mais de mil postos de 10 estados, movimentando bilhões.
A Receita Federal revelou que o PCC comandava um esquema de adulteração de combustíveis em mais de mil postos de 10 estados, movimentando bilhões.

A Polícia Federal e a Receita escancararam que o PCC montou um império clandestino de adulteração, movimentando bilhões de reais e espalhando metanol por postos de todo o país. Ou seja, não é a E30 a vilã da vez, mas sim a adulteração sistemática que compromete tanto o motor quanto o bolso do motorista.

Isso levanta uma pergunta que não consigo deixar de fazer: onde estava a fiscalização enquanto metanol, um produto altamente tóxico, entrava livremente na cadeia de combustíveis? Como caminhões e distribuidoras puderam operar anos a fio sem que ninguém percebesse as fraudes em larga escala?

Se motoristas já desconfiavam da bomba quando o carro “bebia demais”, agora entendemos que a suspeita tinha fundamento, mas o alvo estava errado. Não era a nova fórmula, mas sim a criminalidade organizada que se infiltrou em cada etapa da produção e distribuição.

Essa realidade cria uma frustração enorme para quem paga caro pelo combustível. Ao mesmo tempo em que a gasolina brasileira já não é barata, o consumidor descobre que está sendo enganado duas vezes: no preço e na qualidade.

É preciso dizer: a responsabilidade não pode ficar apenas nas costas da PF em operações pontuais. A ANP, os órgãos estaduais e a própria Receita têm de reforçar a vigilância para que a adulteração deixe de ser regra e volte a ser exceção.

O trabalho recente da Polícia Federal é um sopro de esperança. Ao atingir a estrutura bilionária do PCC, ela mostra que ainda existe espaço para recuperar a confiança do consumidor e limpar o mercado de combustíveis.

Mas seria ingênuo acreditar que tudo se resolve com uma só operação. A adulteração está enraizada, envolve fundos de investimento, transportadoras, usinas e postos. Ainda há um longo caminho pela frente até que possamos abastecer com a tranquilidade de que estamos pagando por um produto íntegro.

Por enquanto, resta a expectativa de que essa ofensiva não seja apenas mais uma manchete passageira. Se houver continuidade, quem sabe um dia não teremos que culpar a E30 ou qualquer outra fórmula, porque finalmente teremos gasolina de qualidade em todo o país.

Fonte: Neofeed, Estadao, G1 e CNN.

Alan Corrêa
Alan Corrêa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.