Coruja-buraqueira nas cidades: pesquisadores da USP alertam para riscos causados pela expansão urbana
Pesquisadores da Universidade de São Paulo iniciaram uma mobilização pública para proteger a coruja-buraqueira, espécie conhecida por viver em áreas abertas e cada vez mais presente em regiões urbanas. O objetivo do projeto é alertar para os impactos da expansão das cidades sobre os ninhos desses animais e incentivar a população a colaborar no monitoramento da espécie.
A iniciativa é conduzida pelo Laboratório de Etologia e Bioacústica da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. O trabalho envolve acompanhamento de ninhos em áreas urbanas da cidade e no distrito de Bonfim Paulista, com atenção especial ao entorno do Parque Olhos d’Água, região onde a urbanização tem avançado sobre antigas áreas rurais.
Embora a coruja-buraqueira seja frequentemente vista em terrenos abertos e margens de estradas, pesquisadores alertam que essa presença pode criar uma falsa sensação de segurança sobre a estabilidade da população.
Espécie aparentemente adaptada pode estar em declínio
A coruja-buraqueira, conhecida cientificamente como Athene cunicularia, é considerada uma espécie sinantrópica, ou seja, capaz de viver em ambientes modificados pelo ser humano.
Essa característica faz com que muitos observadores acreditem que o animal se adapta facilmente à urbanização. No entanto, estudos internacionais mostram que populações urbanas podem entrar em declínio mesmo quando a espécie continua visível.
Na América do Norte, por exemplo, cidades já registraram redução populacional significativa e perda de conectividade genética entre grupos de corujas. Esse cenário levou países como o Canadá a desenvolver políticas específicas para recuperação da espécie.
Adaptação comportamental tem limites
Pesquisadores observam que a coruja-buraqueira demonstra certa flexibilidade diante do ambiente urbano.
Entre as mudanças comportamentais registradas estão:
- Alteração nos horários de atividade
- Maior tolerância à presença humana
- Uso de estruturas urbanas como postes e placas
- Mudanças na dieta conforme a disponibilidade de presas
Essas adaptações, conhecidas como plasticidade fenotípica, permitem que os animais ajustem comportamento ou fisiologia em resposta ao ambiente.
Contudo, os pesquisadores alertam que essa capacidade tem limites. Quando fatores como destruição de ninhos ou mortalidade superam a taxa de reprodução, a população pode entrar em declínio.
Soterramento de ninhos é uma das principais ameaças
Um dos riscos menos visíveis apontados pelos pesquisadores é o soterramento de ninhos durante obras.
Terrenos urbanos podem permanecer vazios por longos períodos e acabam sendo ocupados pelas corujas, que utilizam buracos no solo como abrigo e local de reprodução.
Quando a construção começa, essas tocas podem ser destruídas sem que trabalhadores ou responsáveis pela obra percebam a presença de filhotes.
Segundo pesquisadores envolvidos no projeto, a ausência de uma nova triagem ambiental antes do início das obras aumenta o risco de que ninhos ativos sejam soterrados.
Espécie ajuda no controle de pragas urbanas
Apesar de pouco percebida no cotidiano das cidades, a coruja-buraqueira desempenha um papel importante no equilíbrio ecológico urbano.
A dieta do animal inclui presas comuns em ambientes urbanos, como:
- Baratas
- Escorpiões
- Ratos
- Camundongos
Esse comportamento contribui para o controle natural de pragas e reforça a importância da preservação da espécie em áreas urbanizadas.
Pesquisa usa bioacústica e análise isotópica
O estudo conduzido pela USP combina diferentes métodos científicos para compreender como a urbanização afeta a espécie.
Entre as técnicas utilizadas estão:
- Monitoramento bioacústico das vocalizações
- Análise genética da população
- Estudo da produtividade reprodutiva
- Análise isotópica para identificar dieta
A análise de isótopos de carbono e nitrogênio permite identificar quais tipos de presas fazem parte da alimentação das corujas. As marcas químicas presentes em tecidos, penas ou regurgitos ajudam os pesquisadores a entender se os animais estão consumindo presas típicas de ambientes urbanos, agrícolas ou naturais.
O monitoramento das vocalizações também oferece pistas sobre comportamento territorial, presença de filhotes e níveis de estresse da população.
Participação da população é parte central do projeto
Além da pesquisa científica, o projeto aposta na participação social para ampliar o monitoramento da espécie.
Moradores podem informar a localização de tocas por meio de um formulário on-line divulgado pelos pesquisadores. A ideia é reunir dados que ajudem a mapear áreas de ocorrência e identificar possíveis ameaças aos ninhos.
Os pesquisadores lembram que perturbar, capturar ou causar danos à fauna silvestre constitui crime ambiental previsto na legislação brasileira.
Com a combinação de pesquisa científica, monitoramento urbano e participação da população, o projeto busca ampliar o conhecimento sobre a coruja-buraqueira e contribuir para políticas públicas voltadas à coexistência entre expansão urbana e conservação da fauna.














