Geraldo Leite Rosa Neto, PM investigado por feminicídio, é aposentado com salário integral

Tenente-coronel preso por feminicídio foi aposentado com base na lei e seguirá recebendo salário elevado, decisão abriu questionamentos sobre critérios e impacto do benefício em casos graves.
Publicado por em São Paulo dia
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A decisão saiu em meio a um caso que já vinha provocando tensão dentro e fora da corporação. Nesta quinta-feira, 2 de abril de 2026, a Polícia Militar de São Paulo oficializou a ida para a reserva do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso sob suspeita de matar a própria esposa, a soldado Gisele Alves Santana.

A medida foi publicada por meio de portaria da Diretoria de Pessoal e atende a um pedido feito pelo próprio oficial. Mesmo com a investigação criminal em andamento e a prisão preventiva decretada, a transferência garante a ele o direito à aposentadoria por idade.

O movimento ocorre poucas semanas após a prisão, em março, e mantém os rendimentos do oficial em um patamar elevado. Antes de ser detido, ele recebia R$ 28,9 mil brutos. Com as regras proporcionais aplicadas à sua idade, 53 anos, a remuneração na reserva deve girar em torno de R$ 21 mil.

A concessão do benefício não altera, segundo a própria corporação, o andamento do processo disciplinar conduzido pela Corregedoria. A apuração interna segue paralelamente ao inquérito criminal, que já aponta para um cenário mais grave do que a versão apresentada inicialmente.

Desde o início, o caso foi tratado como possível suicídio. Essa narrativa, porém, perdeu força à medida que os laudos periciais avançaram. A Polícia Civil passou a sustentar que houve feminicídio, acompanhado de tentativa de manipulação da cena.

Quando você junta perícia, mensagens e a dinâmica do que aconteceu, fica difícil sustentar que foi suicídio, a cena aponta para outra direção

A investigação indica que o disparo ocorreu dentro do apartamento do casal, no Brás, região central de São Paulo. A análise técnica e a reprodução simulada descartaram a hipótese inicial e passaram a tratar o caso como homicídio seguido de fraude processual.

Um dos pontos que mais pesaram na mudança de entendimento veio do celular da vítima. O aparelho registrou desbloqueios minutos depois do horário estimado do tiro, incluindo acessos às 7h47, 7h49 e 7h58. No intervalo, às 7h54, foi feita a ligação para o 190.

Esse cruzamento de horários levantou dúvidas sobre a sequência dos acontecimentos e abriu espaço para a hipótese de interferência após o disparo. A perícia também identificou que mensagens trocadas entre o casal haviam sido apagadas.

O conteúdo recuperado reforçou a linha de investigação. As conversas indicavam um conflito em andamento, com menção direta à separação. Em uma das últimas mensagens, a vítima comunicava a decisão de encerrar o relacionamento.

Paralelamente aos dados técnicos, depoimentos de testemunhas passaram a compor o quadro investigativo. Relatos colhidos pela Polícia Civil descrevem episódios anteriores de comportamento agressivo por parte do oficial, inclusive dentro de dependências da própria corporação.

Segundo essas testemunhas, havia registros de discussões com contato físico e sinais de controle sobre a vítima. Também foram mencionadas mudanças de comportamento da soldado na presença do marido, além de possíveis registros por câmeras internas.

Esse conjunto de elementos passou a ser tratado como parte de um padrão que ajuda a contextualizar o crime investigado. A soma entre evidências digitais, perícia e depoimentos deslocou o caso de uma morte inicialmente tratada como autoinfligida para um cenário de violência doméstica com desdobramentos criminais.

A rapidez na concessão da aposentadoria também entrou no centro do debate. O benefício foi publicado menos de uma semana após o pedido, o que gerou questionamentos por parte da defesa da família da vítima.

Não é comum ver esse tipo de agilidade, ainda mais quando há um processo tão grave em curso, isso levanta dúvidas sobre o tratamento dado ao caso

Enquanto a discussão sobre o benefício avança, o processo principal segue em fase final de investigação. A expectativa é que o inquérito seja encaminhado ao Judiciário, com possibilidade de julgamento pelo Tribunal do Júri.

O tenente-coronel permanece detido no Presídio Militar Romão Gomes, e a acusação já aponta para um pedido de indenização mínima de R$ 100 mil à família da vítima, em um caso que ainda deve ter novos desdobramentos nos próximos meses.

Alan Corrêa
Alan Correa
Jornalista multimídia e analista de tendências (MTB: 0075964/SP). Com olhar versátil que transita entre o setor automotivo, economia e cultura pop, é especialista em traduzir dinâmicas complexas do mercado e do comportamento do consumidor. No Carro Das Notícias e portais parceiros, assina de testes técnicos e guias de compra a análises de engajamento e entretenimento, sempre com foco em dados e interesse do público.