Montaram errado? A NASA achou um sistema solar invertido que não deveria existir

Sistema com quatro planetas reorganiza debate sobre como mundos se formam em torno das estrelas mais comuns da galáxia.
Publicado por em Ciência dia
Montaram errado? A NASA achou um sistema solar invertido que não deveria existir
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A 116 anos-luz da Terra, uma estrela discreta e comum, classificada como anã vermelha, passou anos sendo apenas mais um ponto em catálogos astronômicos até que dados coletados pelo Transiting Exoplanet Survey Satellite, da Nasa, começaram a revelar algo que não se ajustava ao padrão esperado. O que parecia ser mais um sistema planetário comum, orbitando a estrela LHS 1903, acabou se transformando em um caso que obrigou pesquisadores a reverem premissas ensinadas há décadas sobre como planetas se formam.

Os primeiros sinais vieram em 2018, quando o TESS detectou variações periódicas de brilho indicando a presença de planetas em trânsito. Depois, o CHEOPS, missão da Agência Espacial Europeia lançada em 2019, refinou as medições. Ao organizar as órbitas e estimar os tamanhos dos corpos, a equipe liderada por Thomas Wilson, da Universidade de Warwick, percebeu que a arquitetura do sistema não seguia a lógica observada no Sistema Solar.

Uma sequência que desafia o modelo clássico

O arranjo dos quatro planetas chamou atenção não pelo número, mas pela ordem. O mais próximo da estrela é rochoso. Em seguida, dois planetas gasosos ocupam as órbitas intermediárias. E, além deles, aparece outro planeta rochoso, com raio cerca de 1,7 vez maior que o da Terra.

Esse detalhe muda tudo. Pelo modelo tradicional, nas regiões internas do disco protoplanetário, o calor intenso favorece a formação de mundos rochosos, enquanto, mais distantes, onde a temperatura permite a condensação de água e outros compostos, surgem gigantes gasosos. No Sistema Solar, essa divisão é clara. Em LHS 1903, a fronteira foi atravessada por um planeta que, em tese, não deveria estar ali.

Quando os dados foram consolidados e apresentados na revista Science em 12 de fevereiro de 2026, o debate deixou de ser hipotético. Havia um planeta rochoso além de dois mundos ricos em gás, orbitando uma das estrelas mais comuns da galáxia.

As hipóteses que não funcionaram

Antes de propor uma nova explicação, os pesquisadores testaram caminhos já conhecidos. Simularam colisões violentas que poderiam ter arrancado a atmosfera de um antigo gigante gasoso, deixando apenas um núcleo rochoso. Avaliaram a possibilidade de interações gravitacionais extremas que teriam alterado as órbitas ao longo de milhões de anos.

As simulações não reproduziram o sistema observado. Nenhum dos cenários tradicionais conseguiu gerar um planeta rochoso naquela posição externa sem criar instabilidades incompatíveis com o arranjo atual.

Formação tardia em um disco já empobrecido

A hipótese que ganhou força parte de uma mudança de perspectiva. Em vez de imaginar que os gigantes gasosos surgiram primeiro, como no Sistema Solar, o modelo sugere que os planetas de LHS 1903 se formaram de dentro para fora, em sequência. O planeta mais interno teria nascido quando o disco de gás e poeira ainda era abundante. Os seguintes se formaram depois. E o mais externo teria surgido milhões de anos mais tarde, quando o material disponível já era escasso.

Sem gás suficiente para crescer até se tornar um gigante, esse último planeta teria permanecido rochoso. Não por exceção violenta, mas por falta de matéria-prima.

O que esse sistema pode ensinar

Para Sara Seager, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que participou do estudo, o caso sugere que a formação de planetas ao redor de anãs vermelhas pode seguir trajetórias distintas das que moldaram o Sistema Solar. Heather Knutson, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, vê no planeta externo um alvo promissor para futuras observações, já que suas características podem permitir a presença de diferentes tipos de atmosfera.

A próxima etapa deve envolver o James Webb Space Telescope, capaz de investigar composições atmosféricas com maior precisão. A expectativa é que dados mais detalhados indiquem se o planeta preserva traços que confirmem a formação tardia em ambiente empobrecido.

Um dado que reorganiza o debate

A descoberta não encerra a discussão sobre como sistemas planetários se constroem, mas adiciona um elemento difícil de ignorar. LHS 1903 mostra que a arquitetura dos sistemas pode ser mais diversa do que os exemplos conhecidos sugeriam. Em vez de exceção isolada, o sistema pode ser indício de um conjunto ainda pouco observado de configurações.

A cada novo catálogo de exoplanetas, a ideia de que o Sistema Solar é o modelo padrão perde força. O caso de LHS 1903 reforça essa tendência ao apresentar uma estrutura que não depende de colisões catastróficas nem de rearranjos extremos, mas de uma simples diferença no tempo e na disponibilidade de gás.

Segundo a CNN, se confirmada por observações futuras, essa interpretação não altera apenas a posição de um planeta em uma órbita distante. Ela desloca o eixo de uma teoria construída a partir de poucos exemplos e amplia o repertório de formas possíveis de organizar mundos ao redor das estrelas mais comuns da Via Láctea.

Elemento Informação
Estrela LHS 1903, anã vermelha
Distância Aproximadamente 116 anos-luz
Planetas Quatro, com sequência rochoso-gasoso-gasoso-rochoso
Publicação Revista Science, 12 de fevereiro de 2026
Missões envolvidas TESS (Nasa) e CHEOPS (Agência Espacial Europeia)

Alan Corrêa
Alan Correa
Jornalista multimídia e analista de tendências (MTB: 0075964/SP). Com olhar versátil que transita entre o setor automotivo, economia e cultura pop, é especialista em traduzir dinâmicas complexas do mercado e do comportamento do consumidor. No Carro Das Notícias e portais parceiros, assina de testes técnicos e guias de compra a análises de engajamento e entretenimento, sempre com foco em dados e interesse do público.