Porque os preços de carros no Brasil são tão altos?

É inegável que o brasileiro é apaixonado por carro. Prova disso é que atualmente o Brasil é o 9ª país com maior consumo de carros no mundo, mas já foi o 4ª não há muito tempo. Essa queda se deve à grande crise que o país vem atravessando nos últimos anos, o que se refletiu de forma expressiva no setor automobilístico, e também ao preço exorbitante que é praticado, inclusive nos lançamentos 2019. Entenda mais na sequência da leitura.

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4 meses atrás
Porque os preços de carros no Brasil são tão altos?
Tomaz Silva/Agência Brasil

Quais os motivos pelos quais os carros são tão caros no Brasil?

O Brasil ainda é, apesar da crise, um grande consumidor no setor de automóveis, mas já foi muito mais fã das marcas de veículos. Hoje ficamos atrás de países como China, Estados Unidos, Japão e Itália. Esse recuo no setor deve-se em parte à crise financeira do país, mas também porque o brasileiro está desiludido com o geral da administração do país – e aqui entra a questão do custo de bens como automóveis – e está priorizando outras coisas.

Segundo a revista Forbes, os preços dos carros no Brasil só se justificam se as rodas forem folhadas a ouro. É uma forma jocosa de dizer que estamos pagando por algo a mais além do veículo.

Para termos uma ideia de quanto pagamos caro, basta dizer que o setor de autopeças fatura R$ 100 bilhões por ano, quase duas vezes mais que a JBS – não é dizer pouco – e ainda não estamos falando no combustível, impostos e mais impostos, seguro privado e outros gastos relacionados (estacionamento, limpeza, pedágio, etc.).

O grande problema é que hoje o cidadão é praticamente obrigado a ter um carro, mesmo aqueles que prefeririam utilizar o transporte público se fosse minimamente adequado. Pode-se dizer que é patente a inércia voluntária do governo em investir nesse setor, já que as montadoras geram muito mais renda.

Atrelado a essa imposição está a dificuldade de importação – hoje praticamente impossível – de bens do setor de veículos e a grande dificuldade que outras montadoras que não aquelas já estabelecidas têm em entrar no país para competir no mercado. Ou seja, as opções para o consumidor se resumem a poucas grandes marcas que impõe o preço que quiserem.

Fator burocracia encarece tudo no Brasil

Outro fator que encarece qualquer coisa no Brasil, mas de modo especial o mercado automobilístico, é a imensa e desnecessária burocracia para se fazer qualquer coisa, até nas novas placas. Os custos para vencer a papelada são altos e acabam sendo pagos pelo consumidor final, pois as empresas precisam repassar o custo para ter chance de sobreviver.

Isso sem falar no alto custo para se manter uma empresa no país. A energia elétrica, cuja fonte é especialmente barata para um sistema hidrelétrico, é absurdamente cara. As leis trabalhistas são tão draconianas que quase inviabilizam a vida saudável de qualquer empreendimento, especialmente dos pequenos e novos. Por fim, a morosidade em se obter todas as permissões e aprovações junto a cada um dos órgãos responsáveis mata por asfixia qualquer bom movimento empreendedor.

Não está acreditando? Então vamos aos números, porque eles nunca mentem. Informações divulgadas pela ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) um carro fabricado no Brasil é cerca de 60% mais caros do que em outros países emergentes – note que não estamos falando de países de 1o mundo – o que é chocante.

Toda cadeia de fornecedores de peças passa pelo mesmo sistema

Quando falamos em burocracia e impostos no setor automobilístico, devemos levar em conta toda a rede que fornece material para o setor. Por exemplo, as siderúrgicas – sob o pretexto de gerar empregos vitais para o país – têm o monopólio absoluto de todo aço utilizado pelo setor de veículos, e por isso temos um dos aços mais caros do planeta. Importar? Não, isso é impossível por conta dos bloqueios fiscais e legais.

Margem de lucro desproporcional e abusiva

Parte da culpa também é das montadoras, mas só até certo ponto. Elas não abrem mão de sua alta lucratividade, que no Brasil pode chegar até a 10%, enquanto nos Estados Unidos é de apenas 2% e na média mundial é de 5%.

Mas a entrada de outras montadoras é tão difícil que não resta opção a não ser o consumidor aceitar isso e pagar do seu bolso. Se o acesso a importados e a introdução de outras opções fosse mais viável o mercado seria obrigado a reduzir os preços para continuar competitivo.

Os impostos

Sem prejuízo de tudo que se disse até agora, o grande vilão dessa história é o imposto pago no Brasil. As taxas de imposto têm uma média acima dos 50% no preço final do veículo, contra 21% na Argentina, 22% na Itália, 7,5% nos Estados Unidos, 5% no Japão ou 19% na Alemanha.

Para carros importados existe uma espécie de “corredor de impostos”, uma verdadeira cascata de tributações que no final acabam duplicando – ou mais ainda – o preço de um veículo. São IPI, ICMS, PIS/COFINS entre outros, e ainda não falamos do IPVA, Licenciamento e DPVAT.

Ninguém está sugerindo que não deva haver impostos, mas que ele deveria ser melhor aplicado, no lugar certo. Qual a lógica de uma pessoa cujo salário é de R$ 5.000,00 pagar o mesmo imposto sobre um produto e de uma outra pessoa que ganhe R$ 50.000,00?

Um exemplo poderá ajudar a entender a questão: uma pessoa de classe média/alta que ganhe R$ 5.000,00 por mês e compra um carro popular, por exemplo um Ford Ka com motor 1.0 sem nenhum acessório para toda sua família paga o mesmo imposto que uma outra pessoa que fatura R$ 50.000,00 por mês na compra do mesmo modelo para seu filho que completou a maioridade.

Na prática o primeiro arcou com um imposto 10 vezes mais pesado do que o segundo. A tributação, além de ser desproporcional, está aplicada no lugar errado.

Mas vamos ver mais alguns números chocantes: aproximadamente 42% do que é faturado pela indústria é tributação, graças a esse efeito cumulativo de todos os impostos.

Isso significa, na prática, que gastamos cerca de 2.600 horas/trabalho do ano para pagar impostos, simples assim. Em outros países, como o México e a Argentina – para não falar de países de 1o mundo – são necessárias 286 e 405 horas/trabalho, respectivamente.

Grande demanda aliada à estratégia do governo

Como já dissemos acima, mas convém reforçar, os preços praticados pelas montadoras não baixam porque a demanda continua crescendo. Mesmo durante a crise as vendas aumentavam ano a ano, apenas de modo mais lento.

De seu lado, o governo investe cada vez mais nas BRT’s de modo a explorar e incentivar o setor automobilístico, ganhando de vários lados diferentes: impostos sobre os automóveis, combustível – que tem um imposto altíssimo também – acordos com as Concessionárias das Auto Estradas, entre outros.

Investindo em meios de transporte alternativos, como o ferroviário e o pluvial o seu lucro diminuiria consideravelmente. Mas fatores como diminuição de acidentes, qualidade de vida e preservação do meio ambiente não são suficientes para obrigar o governo a tomar uma medida séria nesse sentido.

Falta de reserva financeira e planejamento do brasileiro

Por fim, um dos aspectos pelo qual o veículo no Brasil é muito caro é porque a cultura financeira do brasileiro é ruim e antiquada. Quase nunca o cidadão conta com uma reserva financeira para a compra de seu veículo, e recorre frequentemente ao financiamento, o qual por si só já conta com uma alta taxa de juros.

Como se não bastasse o imposto representar, em alguns casos, mais da metade do valor real do veículo, o financiamento ainda eleva esse valor a números assustadores, podendo chegar até seis vezes o valor original de um veículo.

O início de uma mudança de cultura: os aplicativos de carona

Viver apenas em função do transporte público é um sonho impossível atualmente. O carro é uma necessidade, e ainda será por bastante tempo. Entretanto, o cidadão brasileiro cansado de pagar pelos erros de seus governantes e começando a se desapegar da cultura onde o carro é um sinal de status ou de poder, começa a encontrar meios alternativos para se esquivar.

Um desses meios são os recentes – e cada vez mais atuais – aplicativos de caronas, como por exemplo Uber e 99 Pop, entre outros. Colocando tudo na ponta do lápis, e dependendo do uso de cada um, fica mais barato pagar por duas corrida todos os dias (ida e volta do trabalho por exemplo), do que comprar e manter um carro. Além disso, para muitas pessoas é uma forma de “sabotar” o sistema vigente.

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