Brasil perde patentes internacionais de substância promissora contra paralisia após 18 anos de espera no INPI

Brasil desenvolve polilaminina com potencial terapêutico para lesão medular, mas perde patentes internacionais após 18 anos de tramitação no INPI e cortes na UFRJ.
Publicado por em Saúde dia
Brasil perde patentes internacionais de substância promissora contra paralisia após 18 anos de espera no INPI
Publicidade

Uma pesquisa conduzida na Universidade Federal do Rio de Janeiro colocou o Brasil no centro de um dos debates mais sensíveis da medicina regenerativa, mas a trajetória da inovação expôs fragilidades estruturais do sistema científico nacional. A polilaminina, substância com potencial terapêutico para lesões medulares, teve seu pedido de patente protocolado em 2007 e levou 18 anos para obter concessão nacional. Nesse intervalo, o país perdeu a proteção internacional por falta de recursos para manter os registros fora do território brasileiro.

Segundo a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, os cortes orçamentários, especialmente em 2015 e 2016, impediram o pagamento das taxas internacionais necessárias para preservar a vigência das patentes. O resultado foi direto: a tecnologia deixou de estar protegida em outros países, mesmo após quase duas décadas de trâmites no Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

O peso da demora no registro nacional

O pedido de patente foi feito quando o potencial terapêutico ainda estava em estágio inicial. Ainda assim, a concessão demorou quase duas décadas. A morosidade, segundo a própria pesquisadora, impactou a estratégia de proteção global da tecnologia.

Durante esse período, o projeto enfrentou obstáculos administrativos e financeiros. Manter registros internacionais exige pagamento contínuo de taxas, e a ausência de recursos compromete automaticamente a vigência fora do país.

Levamos 18 anos para conseguir a concessão da patente nacional, afirmou a pesquisadora ao comentar o processo.

Para evitar que a patente brasileira também fosse perdida, ela decidiu assumir parte dos custos do próprio bolso. O gesto foi uma tentativa de preservar anos de trabalho científico e evitar que a inovação desaparecesse do mapa jurídico nacional.

O que é a polilaminina

A polilaminina é uma forma polimerizada da laminina, proteína presente naturalmente no organismo. No laboratório, ela é extraída e adaptada a partir de material biológico, como a placenta humana, para criar um ambiente favorável à regeneração neuronal.

Em testes iniciais, a molécula estimula axônios, estruturas responsáveis pela transmissão de impulsos nervosos, a se reconectarem em áreas lesionadas da medula espinhal.

  • Estimulação da regeneração neuronal
  • Ambiente favorável à reconexão de axônios
  • Aplicação experimental em casos de tetraplegia e paraplegia

Ensaios experimentais apontaram recuperação parcial ou total de movimentos em pacientes com lesões graves, resultados que surpreenderam a comunidade científica e reacenderam discussões sobre novas abordagens em medicina regenerativa.

Cortes e financiamento científico

De acordo com a pesquisadora, os contingenciamentos que atingiram universidades federais em 2015 e 2016 tiveram efeito direto sobre a manutenção das patentes internacionais. Sem pagamento das taxas periódicas, os registros foram automaticamente perdidos fora do Brasil.

Ela também contestou a ideia de que países desenvolvidos dependem menos de recursos públicos para pesquisa, afirmando que, nos Estados Unidos, grande parte do financiamento científico também é de origem pública.

A partir de 2021, o projeto passou a contar com financiamento integral do laboratório Cristália. A cooperação, segundo a cientista, foi estruturada para garantir que a universidade mantivesse seus direitos institucionais.

Aspecto Situação
Pedido de patente Protocolado em 2007
Concessão nacional Após 18 anos
Proteção internacional Perdida por falta de pagamento de taxas
Financiamento atual Parceria com laboratório Cristália

A patente está em regime de copropriedade entre a universidade e a empresa. A exclusividade comercial no Brasil será temporária, por dois anos, após os quais outros laboratórios poderão produzir a substância.

Entre a inovação e a fragilidade estrutural

A trajetória da polilaminina sintetiza dois movimentos paralelos. De um lado, uma inovação com potencial terapêutico relevante e reconhecimento internacional. De outro, entraves burocráticos e limitações orçamentárias que reduziram o alcance global da tecnologia.

O caso reforça a importância de continuidade no financiamento científico e de maior agilidade na análise de patentes estratégicas. Em áreas como medicina regenerativa, tempo e proteção jurídica caminham juntos.

A substância ainda está em fases iniciais de pesquisa clínica, e seu impacto em larga escala dependerá de avaliações futuras e aprovação regulatória. Mesmo assim, o episódio já expõe uma questão central: desenvolver tecnologia é apenas parte do desafio. Garantir que ela esteja protegida e competitiva no cenário internacional é tarefa igualmente decisiva para qualquer país que pretenda disputar espaço na fronteira do conhecimento.

Pablo Silva
Pablo Silva
Especialista em jornalismo automotivo, analisa carros com olhar técnico e paixão por motores. Produz reportagens exclusivas e detalhadas para o Carro.Blog.Br.