Ferrari Luce deveria abrir uma nova fase para a fabricante italiana, mas sua apresentação produziu o efeito oposto
O Ferrari Luce deveria abrir uma nova fase para a fabricante italiana, mas sua apresentação, em 25 de maio, produziu o efeito oposto. Em poucas horas, as ações caíram quase 8% e mais de US$ 4 bilhões, cerca de R$ 20,5 bilhões, desapareceram do valor de mercado da companhia.

A reação não nasceu apenas do motor elétrico. O desenho simples, desenvolvido com a LoveFrom, empresa de Jony Ive, ex-designer da Apple, afastou o modelo das curvas dramáticas e da presença visual que ajudaram a construir o imaginário da Ferrari. Entre colecionadores, o Luce foi comparado a modelos comuns e acusado de não transmitir a emoção esperada de um carro da marca.
Um elétrico de US$ 640 mil diante de um público movido por tradição
O preço de US$ 640 mil, equivalente a aproximadamente R$ 3,3 milhões, coloca o Luce entre os carros mais caros do mercado, mas não garante aceitação automática. O comprador típico da Ferrari procura exclusividade, história, desempenho e um lugar dentro de uma comunidade construída em torno do som dos motores e das competições.

Esse vínculo explica por que a rejeição ganhou dimensão tão rapidamente. A Ferrari entregou menos de 14 mil carros no ano passado, mas reúne 32,3 milhões de seguidores em sua principal conta no Instagram e outros 20,4 milhões ligados à equipe de Fórmula 1. Mais de 81% dos carros novos são vendidos a clientes que já tiveram outro modelo da marca.
A força desse público sustenta números incomuns. A empresa gera cerca de € 430 mil, ou R$ 2,5 milhões, em receita por veículo vendido e mantém sua carteira de encomendas ocupada até 2027. Qualquer mudança que ameace a percepção de raridade, beleza ou herança, portanto, afeta um patrimônio que vai além das fábricas.
Eletrificação já estava nos planos da Ferrari
A chegada do Luce não representa uma decisão isolada. A fabricante vende híbridos plug-in desde 2019 e prevê que 20% de sua produção seja totalmente elétrica até 2030. Analistas citados no material estimam 500 unidades do Luce em 2027 e 700 em 2029.

O modelo também ajuda a empresa a responder às regras de emissões na Europa e pode atrair compradores que nunca tiveram uma Ferrari. Em 28 de maio, o CEO Benedetto Vigna afirmou que havia pedidos de clientes antigos e de novos consumidores.
A Ferrari mantém o cronograma e pretende realizar os primeiros testes de imprensa do Luce no fim de 2026, etapa que mostrará se a experiência ao volante consegue reduzir a rejeição provocada pela apresentação.
“Eu não compraria o Ferrari Luce apenas por ser o primeiro elétrico da marca. Por US$ 640 mil, ele precisa entregar algo que vá além da novidade e justificar por que merece carregar o mesmo emblema de carros que transformaram som, desenho e velocidade em desejo. O risco é pagar por um marco histórico e receber um modelo que ainda não emociona como Ferrari. Antes de decidir, eu esperaria os testes, porque é na pista e na estrada que esse carro terá de provar que não vive apenas do nome.” – Opinião do Autor


































